Textos do mês Fevereiro 2005 ↓
José Mário Costa suscita, no Clube de Jornalistas, uma questão recorrente no jornalismo, mas nem por isso menos interessante - o que significa que a discussão é velha e continua por aparecer uma solução melhor.
“Morreu de doença prolongada“, ouve-se repetidamente. Diz JMC: “Afinal, o que é, hoje, morrer de «doença prolongada», senão tudo e nada?“.
Em abstracto concordo plenamente.
Mas o caso é mais complexo:
- a causa da morte não é, na maior parte dos casos, matéria que deva interessar ao público, situando-se, antes, na esfera pessoal e íntima - do morto e da família; é notícia que morreu, que foi de doença (e não de acidente ou suicídio) e nada mais (mais pode ser voyeurismo);
- a causa da morte pode não ser divulgada pela família e portanto só com uma (pequena ou grande) investigação é que saberá a verdadeira razão (há um certo pudor, por exemplo, à volta da palavra cancro, para já não falar de sida…);
- “doença prolongada” é uma solução de compromisso encontrada empiricamente e que, podendo provavelmente ser substituída por outra (porquê o prolongada? já é um lugar-comum), resolve o direito do público a ser informado com o dever de reserva da vida íntima a que os jornalistas estão obrigados;
Via Jornalismo e Comunicação tomei conhecimento de um debate que juntou o especialista em sondagens Pedro Magalhães e o director adjunto do Público Eduardo Dâmaso.
Duas notas:
- Dâmaso repetiu uma questão que o próprio levantou num recente “Clube de Jornalistas” sobre o poder das agências de comunicação. Trata-se, de qualquer forma, de uma acusação demasiado vaga para produzir resultados! E, já agora, por que não tratá-la no Público?
- Pedro Magalhães levantou uma questão que aqui foi suscitada. É importante que cada vez mais gente repudie e rejeite opções como essa. Que - ironia absoluta - nem se fundam no terrível argumento das audiências (e, sim, foi na Sic Notícias).
PS - Pedro Magalhães deveria explicar melhor isto: «considerou “preocupante” o estado da informação na TVI, que achou “totalmente contaminada”». ACTUALIZAÇÃO A 17/3/05: Pedro Magalhães contactou-me, explicando: “Fui mal citado no jornal. O que disse foi que achava preocupante o estado da informação na TVI, dada a contaminação total entre informação e opinião nos noticiários do canal e no discurso dos apresentadores desses noticiários“. Sem dúvida!
O JN de hoje dá conta do início do julgamento que opõe Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e Vieira da Silva a O Independente - o jornal disse que estes dirigentes socialistas abiam há muito dos abusos sexuais na Casa Pia.
Ontem, no tribunal, “os jornalistas assumiram que tinham sido enganados [pela fonte], que teria afirmado ter dado conhecimento às autoridades de uma série de provas, que afinal nunca juntara”.
Há duas coisas a dizer, para já:
- em assuntos que envolvam gravemente a honra de alguém não basta uma denúncia (ainda que identificada) de alguém, é preciso que os jornalistas confirmem alguma das provas;
- depois do jornal ter percebido que se enganara, deveria ter feito - com o mesmo destaque da notícia original - um desmentido/explicação;
… e mais um livro?
Já estou à espera!
Mário Soares meteu água (à luz da práxis instituída) quando falou em maioria absoluta do PS (ou então deu um murro na hipocrisia instalada - para este caso/âmbito em concreto é indiferente).
A comunicação social (rádios e televisões) reproduziu.
A CNE interveio e solicitou que essa declaração não fosse reproduzida. A partir daqui levantam-se algumas dúvidas:
- passar a ignorar completamente o caso, incluindo a posição da CNE, em nome do interesse noticioso?
- ignorar a recomendação da CNE e manter a declaração do ex-presidente no ar (antes ou depois, acrescentando que a CNE pensa abrir um processo/queixa?)
- acatar a recomendação da CNE? Mas como cumprir o que diz a CNE sem explicar aos ouvintes (que entretanto chegaram à antena ou nem se aperceberam) o que está em causa? Ou seja, sem dizer o que Mário Soares disse, ainda que com outras palavras e sem o som?
- esta última opção - que, pelo menos, foi a que a TSF seguiu - é a mais sensata em nome do interesse dos ouvintes (é a que serve melhor a compreensão da mensagem). Mas será eticamente aceitável?
PS - diz a CNE que “A lei obriga a que não se fale nas forças políticas e orientação de voto numa proximidade de 500 metros das urnas”. Portanto, o problema não é as rádios e as televisões terem reproduzido (a substância d)as declarações de Mário Soares mas ele ter dito isto dentro dos tais 500 metros. Se fosse a 503 já não havia problema???
A mesma sondagem (pelo menos com a mesma ficha técnica) aparece hoje no Jornal de Negócios e no Correio da Manhã… mas com resultados diferentes!
Na ficha do Correio da Manhã diz-se: “REALIZAÇÃO 12 a 16 de Feveiro, para o Correio da Manhã pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá e Luís Reto“. No Jornal de Negócios (que não está on line) a ficha técnica diz: “REALIZAÇÃO 12 a 16 de Feveiro, para o Correio da Manhã/Jornal de Negócios pela Aximage, com a direcção técnica de Jorge Sá e Luís Reto“.
Mas o mais surpreendente é mesmo a diferença nos resultados:
No Correio da Manhã:
PS 45,4
PSD 28
CDU 6,8
PP 6,7
BE 5,2
No Jornal de Negócios:
PS 46,8
PSD 29,6
CDU 7,0
PP 7,3
BE 5,5
E agora?
ACTUALIZAÇÃO.
Pedro Magalhães acaba de explicar (em parte)! Aqui.
ACTUALIZAÇÂO/DESILUSÃO a 21/2: o Jornal de Negócios de hoje não diz nada sobre isto! “Os leitores? A gente assobia para o ar…“
… um jornalista que fazia jornalismo mas nem o próprio se considerava jornalista! Nem podia! Além de funções incompatíveis com o jornalismo (daquelas que estão previstas no artigo 3 do Estatuto do Jornalista), era conhecida a sua activa militância política. Acontece que no desempenho dessa função jornalística, o jornalista em causa tinha de fazer relatos da actividade e dos programas dos outros partidos (que, obviamente, sabiam que ele era da “oposição”…).
Como é que ele fazia? Sempre que tinha de abordar os dirigentes dos outros partidos comportava-se como se fosse um fervoroso militante, dessa área, mas desde pequenino! Para compensar, era dócil, disponível, subserviente. Os dirigentes dos outros partidos riam-se e agradeciam!
(felizmente, esta é uma história de ficção!)
Hoje no Público (assina José Manuel Rocha):
“Com a campanha eleitoral em curso e os principais candidatos a multiplicarem-se em comícios, o problema da rádio e do repórter voltou à ribalta. Ou seja, o que fazer quando o político faz pausas, à medida que vai desfiando o discurso?
Na forma, o problema de base é que esse espaço (geralmente com palmas dos assistentes) é puro ruído radiofónico. E o repórter não escapa à necessidade de dizer qualquer coisa para que o ouvinte não perca a paciência e mude para algo mais interessante.
A questão é que, na maior parte dos casos e à falta de conteúdos alternativos, o (a) repórter cai no mais óbvio, mas também no mais desagradável, que é fazer uma síntese do que o orador afirmou nos dois/três minutos anteriores.“
Penso o mesmo. Remeto, aliás, os interessados para algo que escrevi em 26 de Novembro:
“Há, contudo, uma situação em que o ouvinte recusa a intervenção jornalística, preferindo ser ele próprio “testemunha” integral dos acontecimentos: os directos de discursos, conferências de imprensa ou debates parlamentares.
Nestes casos de transmissão em directo, o ouvinte quer o jornalista intervenha o menos possível. E como é que o jornalista intervém? Pontuando, ciclicamente, essas intervenções, com pequenos resumos, pequenos enfoques, notas que precisam de ser reforçadas.
Como essas notas são feitas durante as intervenções (e não, apenas, no final), há - em muitos casos - um corte no discurso, uma interrupção na compreensão do discurso.
Já expliquei a muitos ouvintes que essas notas se destinam, sobretudo, aos que entretanto chegam e perderam o que aconteceu até aí. Mas acho que não convenci nenhum deles. Ficam irritados, acham que lhes estamos a chamar atrasados e que dispensam muito bem esses comentários (muitos deles - reconheça-se - meramente repetitivos). Provavelmente têm razão!”
“
O problema não é tão grave na rádio como na televisão, mas é óbvio que os espaços publicitários representam um perigo para a conquista de “share” na rádio - então, se esses ecrãs são prolongados, como acontece, por exemplo na TSF…
Neste contexto merece uma referência a ideia da Rádio Renascença* de “obrigar” os ouvintes a manterem-se ligados durante o tempo do intervalo publicitário. Como? Colocando, imediatamente antes, uma pergunta, cuja resposta aparece imediatamente depois (do género “Trivial Pursuit”).
E é interessante porque - já me aconteceu diversas vezes - nos leva a ficar à espera dessa resposta: se não sei, fico a saber; se acho que sei, tenho de confirmar.
É uma ideia que devia ser seguida (e nem sei se é uma criação original da RR), devidamente adaptada ao perfil de cada rádio - neste aspecto, a própria Renascença tem de trabalhar melhor: hoje, por exemplo, antes das 9.30, perguntavam pelo nome de um pintor cubista chamado George Braque (as perguntas poderiam ser mais úteis e próximas da realidade, evitando-se os virtuosos conhecimentos enciclopédicos).
* Não começou agora, mas o critério de novidade não é exlusivo neste blogue…
A Antena 3, o canal que, à quinta-feira, a BBC dedica à comunidade portuguesa residente em Portugal, está a prestar verdadeiro serviço público, com apelos à participação nas eleições de domingo, feitos por músicos portugueses (exacto, dos que se ouvem cantar à quinta-feira!).
Zé Pedro, David Fonseca ou Manuela Azevedo, entre outros, têm explicado, com mais ou menos convicção, porque é que é importante votar - e sabendo-se que o público da Antena 3 é essencialmente jovem e menos politizado, é efectivo serviço público aquilo que a rádio está a fazer!
… eu e qulquer outro jornalista, e que não posso transmitir!
Daqui a não muito tempo saber-se-á, provavelmente, que era verdade que Cavaco Silva apostava numa maioria absoluta do PS. E que Miguel Cadilhe não aceitaria ir para um governo com Santana, Paulo Portas (e José Luís Arnaut?). Mas daí até se poder fazer uma notícia com essas informações vai a distância entre a responsabilidade jornalística e uma “boca”, entre o rigor dos factos e a liberdade dos comentários.
Numa altura em que se percebe que uma das principais lacunas do nosso jornalismo contemporâneo é uma atitude (pós-moderna?) de fundir estilos e eliminar fronteiras, estabelecidas num tempo, talvez, clássico, e em que se percebe também uma vontade cada vez maior de tabloidizar o jornalismo (aligeirar, contornar), o caso do Público com Cavaco e as duas notícias do Expresso são exemplos pessimamente eloquentes!
O que dizer da “Nota de Direcção” na primeira página do Público de hoje?
- talvez que tem 24 horas de atraso;
- que era óbvio, desde o primeiro momento, que “permitia um desmentido nos termos do de ontem” (ou jogaram na roleta? “pode ser que ele não desminta…”);
- que se a primeira notícia “resultou do cruzamento de várias fontes“, por que é que referiram apenas uma?
- que, desde o primeiro momento, faltaram dados de enquadramento (local onde disse, quando é que defendeu isso mesmo) que servem para suportar a falta de credibilidade inerente a uma fonte anónima;
- que o problema não foi nem é a palavra “aposta“. Acho que se tivessem escolhido “prevê“, como referem, Cavaco teria desmentido na mesma;
- que - e é a nota mais sensata da posição da Direcção Editorial - “se devem respeitar os silêncios dos políticos: as convicções jornalísticas sobre as suas intenções ou desejos, mesmo as melhor fundamentadas, devem ser apenas objecto de textos de análise ou de comentário“. Ou seja, a notícia original até pode ser verdadeira, mas como afirmá-la perante um desmentido formal, quando, do outro lado, há apenas fonte(s) anónima(s)?
Se tivermos, todos, aprendido alguma coisa com isto já valeu a pena. Mas o Público sai mal, disso não tenho dúvidas!