Textos do mês Março 2005 ↓
Não, Pedro, Pacheco Pereira não tem razão quando escreve que “os mesmos órgãos de informação que citavam religiosamente o Abrupto e que, nalguns casos, o reproduziam quase integralmente na sua parte política, esqueceram-se de o ler nesse dia, e não devem ter lido esta meia dúzia de palavras, certamente erradas e excessivas” (”Os colocadores de feltro”, Público de ontem).
E não tem por duas razões: a primeira é porque faz todo o sentido “o critério jornalístico que considera mais interessante o que diz uma voz vinda do mesmo lado do que a de um adversário que critica por obrigação” (Eu não explicaria melhor…). E Pacheco Pereira sabe bem isso (”o meu blogue foi uma fonte de citações constantes contra Santana Lopes. Nada que eu não tivesse previsto e não desejasse, porque, em política, espera-se que aquilo que se diz tenha consequências e influência“); a segunda: se há quem não tenha legitimidade para contestar esse critério são os políticos - todos: por que é que um político não elogia as ideias/opções/opiniões de um adversário, aproveitando - em alternativa - qualquer pretexto para criticar negativamente (mesmo quando ainda não aconteceu)? Talvez porque fazer bem é o que se espera que aconteça; quando sucede o contrário é que é notícia???? (um exemplo apenas: algum dos partidos da oposição elogiou algum ponto do Orçamento de Estado? Como os anteriores, alguma coisa boa terá, não?)
“(…) O facto mais recente e mais evidente de uma situação de contornos não completamente esclarecidos foi uma reunião na semana passada entre os membros eleitos do Conselho de Redacção do “DN” (o mais directo concorrente do PÚBLICO) e os dois administradores da Global Notícias, sem a presença do director do jornal, Miguel Coutinho, que por inerência de funções preside ao Conselho de Redacção.”
ACTUALIZAÇÃO a 15/3: um leitor atento deste blogue alerta para, na mesma edição, uma outra situação de hipotética necessidade de declaração de interesses: a manchete do jornal é “Venda de alguns medicamentos fora das farmácias não é perigosa”. Ora sendo o accionista do Público o proprietário da maior empresa portuguesa de hiper e supermercados, isto exige ou não a tal “declaração de interesses”? Há quem ache que sim!
Há órgãos de comunicação social que misturam os dois conceitos em simultâneo (os tabloides norte-americanos, por exemplo), mas a maior parte das vezes faz sentido estabelecer uma separação.
Com base em dois exemplos da imprensa de hoje:
Tabloidismo (que se manifesta na escolha dos temas, no privilégio a determinados ângulos, no interesse do público): “Sócrates é vizinho de bordel de luxo” (no Correio da Manhã de hoje, em que é perfeitamente identificada a casa do novo primeiro-ministro*);
Sensacionalismo (que se percebe na desadequação entre o enunciado - nos títulos ou no texto - e a realidade): o Tal & Qual publicou em 18/2 um artigo com o título “Empresa de governante não paga aos trabalhadores“; a governante exerce o direito de resposta na edição de hoje e explica que saiu há 8 anos da direcção financeira e há 3 do conselho fiscal (o jornal também diz que é accionista da empresa, mas não fica claro se assim é);
* a fotografia na página 11, com a legenda/morada devidamente identificada, parece-me ética e deontologicamente censurável
ACTUALIZAÇÃO: Nem a propósito!
ACTUALIZAÇÂO a 14/3: Um bom exemplo de sensacionalismo identificado na página do Clube de Jornalistas (sem ligação permanente); Se o título fosse “Associação Sindical vai processar jornalistas” já não tinha tanta força; vai daí escreve-se “PJ vai processar…”
ACTUALIZAÇÃO A 14/3: Como Eduardo Cintra Torres confunde isto mesmo, no seu texto de hoje do Público: «O 24 Horas tem feito um interessante percurso como tablóide: centra-se em casos pessoais pelo lado emocional e adopta pontos de vista espelhando o que julga ser a posição das “massas” sobre os assuntos. O caso é tanto mais interessante quanto Tadeu é simpatizante do PCP, o que origina um raro “tablóide de esquerda”, sendo suposto que o sensacionalismo inculca e reforça ideologias conservadoras no “povo”.»
O caso dos dois jornais desmentidos reforça um dos lados mais obscuros do jornalismo (português?): apesar de dependerem dos seus leitores, os jornais - neste caso - têm com eles uma relação mínima, sem afectividade, quase de desprezo.
Em vez de partilharem com eles, mostrarem que os consideram (como pessoas inteligentes), os jornais dão o famoso salto em frente, ignoram, barricam-se, tratam os leitores como estúpidos.
Sinto-me como quando vou a uma repartição pública e encontro o famoso espírito de funcionário público: mesmo quando erram (ou chegam a atrasados, ou não têm razão) mostram-se impunes, inacessíveis e, pior, imutáveis - e tal como nos jornais, não há funcionários públicos sem utentes, os que pagam os seus ordenados e são por eles maltratados (é uma generalização evidentemente, espero que injusta para muitos…).
PS - Nem por acaso, hoje no noticiário das 8 da manhã na Antena 1 o editor prometeu, nos títulos do jornal, um tema que acabou por não poder tratar; em vez de ignorar os leitores que ficaram à espera, o jornalista explicou-se, prometendo recuperá-lo no noticiário seguinte!
No DN “fonte próxima de Sócrates” confirma um encontro com Kofi Annan em Lisboa; no Público “o secretário-geral das Nações Unidas estará em Lisboa no dia 13 para se encontrar com o Presidente da República, estando também previsto um encontro a sós com o recém-empossado primeiro-ministro, José Sócrates“.
Neste cenário, se o desmentido do portavoz do MNE tem algum sentido (desmente porque não sabe e deveria saber porque ainda é ministro…), como entender o desmentido de Belém (noticiado há instantes pela TSF)? Annan vem encontrar-se com o Presidente mas Jorge Sampaio não sabe?
Enganar(-se) um jornal é relativamente fácil, mas dois?!
Uma estória para acompanhar (embora me pareça que a fonte socrática é a chave do problema)…
ACTUALIZAÇÃO (1) a 9/3 - no Clube de Jornalistas: “Ambos os jornais dão conta do desmentido nas respectivas edições «on line», mas dos autores das notícias não se leu, até agora, nem uma palavra“
ACTUALIZAÇÃO (2) a 9/3 - O que dizem os jornais de hoje?
O DN explica que “a impossibilidade de o secretário-geral da ONU estar em Lisboa mais do que umas horas durante a tarde e a noite de sábado inviabilizou (…) no final da semana passada (…) a concretização das audiências previstas“;
O Público: “Face aos desmentidos, o PÚBLICO apenas pode confirmar que a visita esteve a ser preparada e chegou a estar agendada“.
Já o Diário Económico explica que “nem no gabinete do secretário-geral da ONU nem na representação diplomática de Portugal nas Nações Unidas chegou a ser equacionada uma viagem a Portugal nesta altura. Em Belém também nada se sabia“.
Ilações a tirar:
- se houve alguma coisa de facto, quando escreveram já estava ultrapassada (como é que não o confirmaram? Aparentemente os que desmentiram ontem teriam feito o mesmo na véspera);
- com dois jornais a noticiarem o mesmo, a fonte só pode ser a mesma;
- parece certo que a fonte enganou os jornalistas; ou os jornalistas é que se deixaram enganar?;
- este caso é insólito porque envolve dois jornais em simultâneo e agrava a ideia de que o jornalismo saiu mal deste caso;
Chama-se João Tomé e não o conheço!
Mas por causa de um comentário no Pontomedia descobri um caso muito interessante de utilização da blogosfera por um jovem jornalista.
São três blogues, um com as suas opiniões sobre o mundo, outro sobre ele próprio (uma espécie de currículo dinâmico e vivo) e outro com as suas angústias sobre o jornalismo.
Bom dia João Tomé!
“(…) Em 1958, realizou “A Invasão dos Marcianos”, emissão baseada no romance de Herbert George Wells “A Guerra dos Mundos” e interrompida pela PSP, que levou Matos Maia para o Governo Civil, onde esteve preso três horas antes de ser interrogado pela ex-PIDE.
Já no Rádio Clube Português foi coordenador geral da estação e realizou programas como “Quando o telefone toca”, “Bossa Nova”, “Lisboa e o Tejo”, “No mundo aconteceu”, “Bom dia manhã” e “Hoje convidamos”.
Dirigiu ainda dois dos canais da RDP e participou na construção da Rádio Comercial.
Foi ainda director da Sociedade Portuguesa de Autores e autor de livros sobre o mundo radiofónico, entre os quais “Aqui, emissora da liberdade”, sobre a ocupação do antigo Rádio Clube Português pelos militares e a sua transformação em posto de comando do Movimento das Forças Armadas, a 25 Abril de 1974.”
(via Lusa)
A Rádio em Portugal acrescenta: «Matos Maia foi, ainda, autor de vários livros: “Aqui, emissora da liberdade”, “Telefonia”, “A invasão dos marcianos + 3 fantasias radiofónicas” e “Uma página, página e meia“.»
“Quanto mais longa é a frase, mais aumenta o número de hipóteses sucessivas formuladas pelo cérebro do ouvinte antes de chegar à hipótese correcta, e mais riscos se corre de esquecer uma parte dos elementos ou de os interpretar mal. Como o ouvinte não pode voltar atrás para «gravar» os elementos que faltam ou defeituosos, arrisca-se a todo o momento a formular hipóteses erradas.
É preciso, portanto, reduzir ao mínimo o número de hipóteses intermediárias (incompletas ou falsas) formuladas pelo cérebro e encurtar o tempo de formulação da hipótese-final sobre o significado da frase. Ter-se-á cuidado de elaborar frases (ou enunciados independentes) que não tenham mais de sete elementos significantes, ou seja, contando as palavras acessórias, não mais de 15, o que corresponde a 6 ou 7 segundos de enunciado em voz alta. Chamemos a este princípio: maximum 15“.
JESPERS, Jean-Jacques, Jornalismo Televisivo, Minerva, Coimbra, 1998, pág. 106.
Se dizemos BBC (e não bibici) e começa a banalizar-se a expressão CNeN (e não Cienene), por que é que temos dizer emetivi?
Através do óptimo blogue de Maria José Rivero, uma galega que está a fazer o doutoramento em Pontevedra (U.Vigo) sobre rádio e - em particular - a rádio à noite, conheci este outro blogue sobre rádio em Portugal.
Moral da história: quem anda na rede acaba sempre por ser pescado!