Textos do mês Abril 2005 ↓
Hoje, em diversos jornais portugueses (Publico, DE, A Capital, Correio da Manhã) há uma mesma notícia (Antena 3 compra empresa de eventos desportivos). Estamos a falar, claro, do canal espanhol de televisão. E, por isso, pergunto: qual é o interesse desta notícia para os leitores portugueses? Mais, haverá algum português a quem essa informação interesse? Mesmo sendo a empresa que organiza a Volta a Espanha em Bicicleta, parece-me que estamos perante um caso (mais um…) de inércia!
O director-geral da empresa de comunicação Weber Shandwick/DE, António Peres, dá hoje uma entrevista notável ao Jornal de Negócios. E classifico-a de notável pelo desassombro das suas afirmações (e não é tanto por estar de acordo com tudo o que diz; estou mesmo!):
- publicação obrigatória das contas das empresas de comunicação;
- necessidade de um estatuto sócio-profissional para os técnicos desta área;
- falta de uma associação representativa (”o número de agências que a APECOM representa já não tem nada a ver com aquilo que a associação representa”);
- falta de uma entidade reguladora;
- consultoras de comunicação não devem ser proprietárias de meios de comunicação;
- vantagens em regulamentar o lóbi;
Terá consequências?
ACTUALIZAÇÃO a 29/4: Obviamente teria consequências! Um leitor fiel chamou-me a atenção para uma afirmação no sítio da Weber Shandwick («… is the leading public affairs and government relations specialist in Portugal»). E se se fala em transparência, não deveria haver uma lista dos clientes governamentais portugueses?
Não sei se é a primeira vez que acontece, mas para mim foi uma novidade: a edição do Jornal de Negócios de hoje inclui um suplemento - identificado discretamente como publi-reportagem - feito por uma empresa espanhola (”Península Press”) em português.
É um suplemento sobre a nova geração de políticos e gestores portugueses (”O poder mudou de geração”), com óptima apresentação visual (a subir muito o paradigma habitual destas publicações), mas completamente anónimo. Não faltam entrevistas, por exemplo ao primeiro-ministro (sim, uma entrevista José Sócrates e logo num suplemento comercial…), a António Borges ou João Talone, pequenas e grandes biografias, muitas análises.
São coisas que fascinam, sem dúvida!
No Expresso de sábado (última página do primeiro caderno) li uma breve que me deixou apreensivo: “Oliveira contra Fernandes”; a meio da notícia, que dá conta de uma queixa de Joaquim Oliveira contra o Jornal de Negócios, fala-se em “quebra de independência editorial e incumprimento das regras deontológicas” por parte do jornal.
Parece uma coisa grave. Ou será apenas fruta da época (a guerra é mais vasta e o jornal «apanha por tabela»)? O futuro o dirá. Mas parece-me que a credibilidade do Jornal de Negócios é atingida por esta acusação. E a credibilidade é o valor mais importante de cada meio de comunicação social. Esperei pela edição de hoje do JNegocios. Mas nada. Só no Diário Económico é que a questão é desenvolvida (e explicada).
Leitor irregular do JNegócios e admirador de Sérgio Figueiredo, não fico indiferente. E - devo confessar - não é a primeira vez que ouço, entre os jornalists que fazem economia, acusações de alguma excessiva proximidade com o accionista. Também por isso gostava que isto se esclarecesse…
ACTUALIZAÇÃO a 27/4: o JNegócios refere-se hoje, pela primeira vez, ao caso (que a sua edição on line noticiou na sexta-feira e que deu origem a tudo isto!!!). Mas apenas com uma notícia, que, basicamente, repõe a que o Expresso trouxe no sábado e a do DE de ontem. DE que volta hoje ao assunto, com os mesmos argumentos de ontem, mais a confirmação da queixa entregue pela Controlinveste contra o JNegócios na AACS. Por mim, reafirmo o que escrevi ontem.
“Um estudo de uma finalista do ISCSP concluiu que os blogs são feitos maioritariamente por professores e profissionais liberais. São pessoas com capacidade de escrever e de comunicar. Algo que, mesmo fora da internet, é apanágio de um número reduzido de pessoas. É um circuito fechado. Na minha opinião os blogs não substituem os jornais nem as colunas de opinião. São complementares. Constituem fontes alternativas para os jornalistas, além de lhes permitir escrever a sua própria opinião, coisa que normalmente não podem fazer nos jornais (…). É um tema muito falado mas extremamente residual e circunscrito“.
(excerto de uma entrevista do professor Gustavo Cardosoà Notícias Magazina desta semana).
Sobre isto e isto, apetece-me citar isto:
“[No século XX] Nós [os jornalistas] é que dizíamos como é que as coisas se tinham passado. O cidadão comprava, ou não comprava. Podia até escrever-nos uma carta, que decidíamos se publicávamos ou não (…). O cidadão podia cancelar a assinatura ou deixar de ver os nossos programas. Era um mundo que levava à auto-satisfação e à arrogância da nossa parte. Enquanto durou foi um maná, mas era insustentável“.
GILLMOR, Dan, Nós, os media, Editorial Presença, Lisboa, 2005, pág. 15
Chega ao fim (chega?) um caso que acompanhei aqui desde o princípio.
Os mais pacientes podem procurar o contexto aqui e aqui (há ligações perdidas, nomeadamente no Público).
De qualquer forma, a coisa resume-se assim: uma jornalista do Público pediu informações à Ordem dos Médicos e esta respondeu-lhe com um conjunto de informações que tinham sido solicitadas - e ainda não enviadas - pelo DN.
O Público publicou e o DN protestou.
Pareceu-me desde o princípio que a fonte foi distraída (no mínimo…) ou mal intencionada. Mas também me pareceu que estando a jornalista do Público consciente da situação poderia ter contactado a camarada do DN (sublinho a palavra camarada, a que me parece mais correcta nestes contexto).
Agora o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas veio dar razão ao protesto do DN. E temos aqui uma situação que pode fazer jurisprudência para o futuro.
PS - como leitor do Público, gostaria de ler neste jornal alguma coisa sobre isto. ACTUALIZO a 22/4: na pág. 36 da edição de ontem, há um texto da jornalista em causa, Catarina Gomes, chamado “Um parecer da Ordem dos Médicos” (pena não estar disponível sem ser por assinatura). Mas penso que se justificaria uma posição da Direcção do jornal sobre o assunto.
ACTUALIZO a 22/4: O DN volta ao assunto, nas suas páginas de “Media & Televisão”, com a resposta ao artigo de opinião da jornalista do Público e ainda uma carta que o Público se terá recusado a publicar, mesmo com uma indicação nesse sentido dada pela AACS (e era preciso?…)
O que é que faz o correspondente da RTP Evgueni Moravitch, em directo da Praça Vermelha, a falar sobre a notícia do novo Papa na Rússia, com um boné à Che Guevara na cabeça (incluindo a estrela vermelha…)?
Será da greve?
E agora que Ratzinger acaba de ser escolhido Papa, a generalidade da comunicação social - que andou claramente a empolar as hipóteses dos dois cardeais portugueses - assobia para o ar!
Mais uma vez levou-se ao limite o exagero, com reportagens nos locais onde os dois nasceram, os seus amigos, os seus gostos (”gosta de bacalhau”), as suas hipóteses de serem escolhidos (”houve um jornalista que falou no nome de Policarpo”…).
Dir-se-á: nos últimos tempos, tem sido sempre assim. Mas contrariamente ao que aconteceu com a morte do Papa, por exemplo, agora tratou-se apenas de “jornalismo de expectativas”*. E o “jornalismo de expectativas” é das manifestações mais negativas do jornalismo (actual?)
*Várias vezes usei esta expressão neste blogue; mas pensando bem, expectativas e jornalismo são palavras contraditórias.
Há alguma coisa que não bate certo na decisão da juiza do caso Casa Pia de proibir a comunicação social de reproduzir os nomes que têm sido divulgados durante o julgamento mas que não são arguidos.
É que a mesma juiza autorizou a provedora da Casa Pia a divulgá-los durante as sessões.
Há ou não interesse público que se sobrepõe a essa decisão da juiza? Não. Terá ela legitimidade (poder) para o fazer? Não sei. A decisão é estranha porque não vai demorar muito até que circulem os rumores (a maior parte deles sem qualquer fundamento, provavelmente).
Deste texto, achei fascinante esta conclusão da Marktest (ver o segundo quadro): durante os 37 minutos de apagão, só por um bocadinho é que a audiência da SIC foi inferior à do segundo canal (tendo sido várias vezes maior). Ou seja, mesmo às escuras houve alguns milhares de pessoas que mantiveram a SIC sintonizada? Ou a audiência do segundo canal é tão residual que se pode considerar zero por cento?
Ontem a Renascença apostou numa notícia relacionada com o fim das listas de espera para intervenções cirúrgicas nos hospitais públicos.
Mas a formulação parece-me perigosa: “Acabaram as listas de espera de vários anos para cirurgia. Nesta altura, nenhum dos portugueses à espera de operação tem registo anterior a 2002 e o tempo médio de espera é inferior a um ano.”
Nenhum, mesmo?
É verdade que as notícias nem sempre precisam de ter uma fonte citada, e esta, directamente, não tem* (a fonte, sobretudo em «on», poderia assumir a responsabilide). Mas é curioso como um responsável político, que fala nessa notícia, diz qualquer coisa como “No norte praticamente já não temos…”.
Ora entre “nenhum dos portugueses” e “praticamente…”…
* Provavelmente a notícia que foi para o ar pode não coincidir com a versão on line, mas o essencial é que, quando ouvi a primeira vez, estranhei a garantia e comentei para quem me acompanhava no carro: nem um, sequer?
Se a maioria dos ministros ainda não abriu a boca ou não disse nada de jeito (no sentido de perceber quais são as suas prioridades), outros parecem estar a falar de mais (no sentido de excesso ou de atracção pelo abismo).
Parece ser o caso de Correia de Campos. Ontem andou a desmentir na TSF o que dissera na RR, mas não consta que o tenha feito na própria rádio a que deu a entrevista; hoje escreve no Público, a esclarecer o jornal (”Azeite em papel de jornal”).
Se eu fosse o seu assessor de imprensa decretava uma ida às termas…
no DN de hoje, em resposta às observações pertinentes de Rogério Santos.
O texto principal do provedor do DN está na rede, mas o seu “bloco-notas” não. E é lá que ele se explica: como está previsto no estatuto do provedor, faz “a crítica do funcionamento e do discurso do media”.
Mas faltam, digo eu, “as crónicas de resposta a interpelações dos leitores com a desejável resposta dos jornalistas ou outros responsáveis” ou, mesmo, “as análises do jornal”.