Textos do mês Julho 2005 ↓
Isto (”Jornal autocensura-se por medo de prisão”*) só pode ter duas explicações:
- o jornal em causa pretende fazer um protesto (simbólico), denunciando as consequências da prisão de jornalistas por se recusarem a revelar as fontes;
- o jornal em causa encontrou aqui uma oportunidade de se promover.
A terceira hipótese é inadmissível: deixar de publicar informações, envolvendo fontes anónimas, por medo!
* No Público de hoje: «O director do jornal norte-americano Cleveland Plain Dealer suspendeu a publicação de duas investigações jornalísticas, por ter medo de vir a enfrentar uma pena de prisão. A atitude, que está a ser discutida em diversos órgãos de comunicação social norte-americanos, tem origem no caso de Judith Miller, a repórter do The New York Times que se recusou a revelar as suas fontes e, por esse motivo, está actualmente presa no centro de detenção de Alexandria, na Virginia. (…)
No editorial que escreveu no Plain Dealer em 30 de Junho, o director explicou que tinha em mãos dois trabalhos baseados em documentos obtidos através de fontes anónimas e que tinha decidido não as publicar por medo de represálias: “Porque falar não é uma opção e ir preso é um elevado preço a pagar, estas duas histórias ficarão por contar. Quantas mais haverá por aí?“.»
Primeiro contaram-me mas, perante a minha incredulidade, fizeram-me chegar o texto, para que não ficassem dúvidas!
O ministro da Saúde iniciou esta semana aquilo que o seu assessor de imprensa chama de “briefing” quinzenal com jornalistas.
Até é de elogiar a disponibilidade do ministro.
Mas o pior vem a seguir:
- as declarações do ministro podem ser registadas, “desde que não façam uso de registo áudio ou vídeo” e divulgadas (a não ser que algum tipo de confidencialidade seja pedido expressamente);
- o assessor do ministro quer um “grupo de jornalistas fixo” e pede para ser avisado “com razoável antecedência” quando houver alterações;
- o assessor pede que lhe sejam indicados: os números de telefone fixo e telemóvel dos jornalistas destacados (dois por órgão), o endereço de e-mail e – o melhor vem agora – “os dias de folga quando fixos e os dias de férias”;
Ou isto não é para levar a sério ou então é preocupante: um ministro chama os jornalistas para encontros regulares em que não é possível fazer registo de som ou imagem?! E quer saber os dias de folga e férias dos jornalistas? Prefiro pensar que não o levaram a sério…
PS – (que eu tenha visto) A Lusa e o Público transcreveram declarações do ministro nesse encontro; o DN não.
“(…) Há no estatuto legal dos jornalistas um preceito específico (art. 14.º) sobre os respectivos deveres profissionais, desde o dever de rigor e isenção até ao dever de não recolher ilicitamente imagens e sons, passando, entre outros, pelos deveres de abster-se de formular acusações sem provas, de não identificar as vítimas de crimes sexuais, de não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa-fé do público. Ora, apesar de a lei os considerar como “deveres fundamentais”, não existe nenhum mecanismo previsto para apreciar e punir as infracções dos mesmos. Trata-se, portanto, de uma norma branca, sem sanção.
A questão que se coloca é a de saber se essa situação deve permanecer assim, face à existência, que ninguém pode negar, de graves violações dos referidos deveres. Concretamente: se um jornalista publicar como verídica uma história que o mesmo inventou, se copiar um texto alheio e o publicar como seu, se identificar ou publicar fotografia de uma criança vítima de violência sexual, se revelar uma fonte à qual tinha garantido sigilo, se publicar uma peça a troco de vantagens pessoais, se, por má-fé, acusar alguém de um facto ilícito - e muitas outras hipóteses bem reais -, será razoável que tais infracções fiquem impunes e que os seus autores continuem a poder reincidir nelas sem qualquer sanção? Será que, em nome da liberdade de imprensa, o “jornalismo de sarjeta”, como uma vez o qualificou um conhecido jornalista, deve continuar a tripudiar sobre os deveres fundamentais da profissão, à custa de direitos de terceiros ou de bens constitucionalmente protegidos? (…)”
(via Clube de Jornalistas, citando o texto de Vital Moreira, de 5/7/05)
“O procurador-geral adjunto Domingos Sá acusou cerca de meia centena de jornalistas por violação do segredo de justiça devido a notícias relacionadas com a investigação da Casa Pia“
(Público de hoje, pág. 9)
Do Público de ontem (pág. 13):
“TC viabiliza aumento escandaloso dos partidos na Madeira”
Escandaloso?
Os leitores mais fieis sabem que, na maior parte dos casos, defendo uma ideia conservadora do jornalismo, relativamente a algumas inovações/adulterações que se verificam, sobretudo, nos últimos anos. É mais um caso.
Também acho que os aumentos em causa são realmente escandalosos, mas o jornal não o deve dizer (porque é uma forma de enviesar a leitura, é uma forma de ser parcial*) - a menos que tenha alguém para citar. E não é o caso.
Se alguém tiver o Livro de Estilo à mão e puder ajudar a enquadrar a situação (uma vez que só amanhã o posso fazer) agradeço.
* Se no jornal acham que o asusnto é escandaloso, então podem tratar o assunto jornalisticamente, desenvolvê-lo, procurar reacções, explicações, ouvir as partes, etc. Será o seu contributo.
Já o escrevi mais do que uma vez: em 15 anos de TSF a única limitação que senti foi quando tive de noticiar assuntos que interessam ao accionista/proprietário (e não eram coisas da ou sobre a TSF)…
A generalidade dos empresários de comunicação social defende a liberdade de expressão, acredita nas virtualidades económicas do pluralismo e até está preparado para ouvir queixas dos amigos, quando estes são visados por alguma notícia. Agora nas suas próprias coisas…
Nunca fui censurado, mas já fiz, uma ou outra, vez auto-censura!
Por que é que me lembrei disto? Comprei o número de Junho da revista Marketeer. E logo a abrir pode ler-se uma entrevista do director editorial ao (seu) administrador-delegado.
Que termina com esta pergunta: “Um último desejo?“
Não faria sentido que estas entrevistas fossem feitas por jornalistas exteriores à publicação?
Era uma vez um jornal que obteve uma boa dica: há um ministro que tem 11 motoristas, sendo que cinco deles estão ao seu serviço. Um ministro com cinco motoristas?! Francamente. Que desperdício dos dinheiros públicos!
Vai daí faz-se uma notícia, mas desvalorizando completamente a consulta ao visado.
Poucas horas depois, o ministro reage e explica que, afinal, até tem menos motoristas do que o seu antecessor. E dos cinco, só um está ao seu serviço.
No dia seguinte, o mesmo jornal tem de fazer uma nova notícia com a versão do visado e o título já é “Costa só usa um ministro“.
Notas minhas:
- Não sei quem tem razão, mas teria sido melhor jornalismo se as explicações do visado tivessem aparecido na primeira (e porventura última) notícia;
- O ministro ter cinco motoristas é claramente notícia; já ter um…
- O ministro ter mais motoristas do que o antecessor é notícia; ter menos…
- A notícia original inclui mais uma “bicada” ao ministro: teria ido de automóvel para uma reunião a 250 metros; afinal a versão do ministro é completamente diferente (estava noutro local, mais longe…);
- O primeiro texto tem, na minha opinião, outro erro: usa uma fonte anónima para emitir um juizo de valor: “fonte do meio judicial, solicitando anonimato, considerou os onze motoristas “um verdadeiro exagero“
É por isso que falo no lado mau do jornalismo: o lado da precipitação, das fontes anónimas que instrumentalizam, da falta de equidade e de cuidado no tratamento das fontes;
Copio a mensagem que acabo de receber de Paulo Moura:
“O jornalismo é uma arte?
A reportagem pode usar os recursos da literatura?
O jornalista deve apenas ver e ouvir, ou também sentir e pensar?
Nos EUA, muitos jornais e revistas adoptaram, desde os anos 90, o Jornalismo Literário para atrair e fidelizar leitores.
Será que podemos fazer o mesmo em Portugal?“
As respostas são dadas por Mark Kramer, jornalista, escritor e professor em Harvard, na Escola Superior de Comunicação Social, dia 11 de Julho, às 15h30.
O Paulo Moura lembra que “Mark Kramer é considerado o guru do Jornalismo Literário, herdeiro da tradição de Tom Wolfe, Norman Mailer e Truman Capote“.
O primeiro-ministro dá hoje uma entrevista (na SIC)!
Se Santana Lopes falava de mais, José Sócrates fala de menos (é uma opinião… mas uma coisa pdoe ter a ver com a outra).
De tal maneira que uma entrevista do primeiro-ministro é notícia.
Porquê hoje? Porque o governo anunciou o pacote dos milhões e José Sócrates tem coisas para dizer (é também uma forma - legítima - de condicionar as perguntas, que não poderão ignorar essas medidas).
Não sei se Sócrates virá a ser um bom primeiro-ministro, mas tem uma estratégia de comunicação muito bem definida.
Tentarei analisar essa estratégia a partir de agora, na secção “Fala Sócrates”.
Todos os dias há centenas (dezenas?) de iniciativas que não merecem cobertura por parte da generalidade da comunicação social.
Quatro razões:
- o assunto é interessante, mas esse OCS não tem repórteres suficientes;
- o assunto não é interessante;
- o (corr: Órgão de Comunicação Social) OCS não soube desse acontecimento porque a informação não lhe chegou (uma falha de comunicação, por exemplo);
- porque é um exclusivo dado a um determinado OCS;
Só nesta última circunstância (e não são todos os que o fazem) é que uma rádio, uma televisão ou um jornal anuncia aos seus destinatários que só ali é que podem ler, ver ou ouvir determinado conteúdo.
Por isso achei muito deslocado aquilo que ouvi no final da semana passada, a propósito de uma reportagem que a Antena Um fez, acompanhando a visita de um dirigente desportivo a uma delegação desse clube no Norte (que estava na agenda de qualquer OCS e não era, portanto, um exclusivo): “A Antena Um, a única rádio de Portugal a acompanhar a visita de… “.
Se cada rádio, jornal ou televisão dissesse uma coisa destas sempre que os outros não aparecem… Além disso, estamos perante uma reportagem banal (que tinha interesse, obviamente, como muitas outras), que não justifica esse tipo de observações. Mais que não seja, por camaradagem, acho eu!
Faltavam-me efectivamente estes números. Que deixam Luís Osório em dificuldades. Porque associam (injustamente?) a sua saída à quebra de vendas, porque revelam que o projecto não vingou (embora tenha passado muito pouco tempo - 9 meses) e porque aquilo que ele diz no editorial de despedida não bate certo - a não ser que se esteja a referir a valores de finais de 2004, mas já com o novo produto a funcionar.
“‘A Capital’, que vai assistir a uma mudança de direcção, após o pedido de demissão de Luís Osório, também revelou um mau desempenho em banca, vendendo agora apenas 3422 mil exemplares“.
Seja como for, admito voltar a este assunto se conseguir mais dados para enquadrar a questão.
Act a 11/7: E os números definitivos apanhei-os na Meios e Publicidade: “Em Março a tiragem passou de 11.215 para os 7.939 exemplares. Há cerca de um ano, o objectivo de Luís Osório era fazer de A Capital um «jornal influente e obrigatório», o que em sua opinião só seria possível com vendas na ordem dos 20 mil exemplares“.
Nota: Não possuía estes dados quando fiz o meu balanço. Mas não altero substancialmente: Osório falhou, mas principalmente porque pôs a fasquia demasiado alta. Era irrealizaável, com aqueles meios.
… para a RTP e para os ministros (António Costa esteve óptimo) que aceitaram ir debater, em horário nobre, com aqueles que os contestam. Se a moda pega, a nossa democracia ainda corre o risco de se tornar um pouquinho mais madura!