A arte da crónica
“(…) Primeiro: a crónica não é um género jornalístico; a crónica é um género literário.
Segundo: a crónica pode partir da realidade mas, não raras vezes, a crónica cria a sua própria realidade.
Terceiro: a crónica não é análise nem comentário; a crónica é confissão e hipérbole.
Quarto: a crónica não pretende formar nem influenciar; a crónica deve entreter e, se possível, opinar.
Quinto: a crónica não vive de especialização; a crónica vive de diversidade.
Sexto: a crónica vale pelo estilo e pela substância .
Sétimo: a crónica não pondera opiniões contrárias à sua; a crónica pondera apenas uma opinião que seja contrária às outras.
Oitavo: a crónica não está certa ou errada; a crónica, como diria Wilde, está apenas bem escrita ou mal escrita.
Nono: a crónica é pessoal; a crónica é um prolongamento do ego.
Décimo: a crónica deve ser tão fácil de ler como de esquecer“.
(com a permissão de reprodução e a vénia estendida ao autor)
Não é regra, nesta página, destacar jornalistas em concreto, por boas ou más razões. Mas os dois primeiros artigos de Tânia Laranjo no Público de hoje justificam uma excepção. Quem é Tânia Laranjo? Os leitores do Jornal de Notícias conhecem-na bem, era a especialista em polícias e tribunais e, provavelmente, a mais produtiva jornalista daquela redacção (pelo menos, a que mais notícias em primeira-mão conseguiu).
Acaba de ingressar no Público, naquela que é uma espécie de contratação do ano. Exagero?
A pergunta remete para uma reflexão interessante: o peso individual de cada elemento em cada redacção. Por outras palavras, o que é que distingue a Tânia de outro jornalista? Além da sua generosa capacidade de trabalho, as suas fontes. As fontes de Tânia valem mais do que aquilo que o Público lhe vai pagar. E não há, em Portugal, mais três jornalistas com o mesmo valor a nível de fontes.
Por isso digo que esta pode ser a contratação do ano – a Tânia vai trazer leitores ao Público. E, com os outros jornalistas que já lá estão, o jornal tem condições para desequilibrar na área judicial e criminal.
(Declaração de interesses: conheço a Tânia muito bem, mas nunca falei com ela!)
Do mesmo jornal, e em contraponto, uma jornalista que precisa de melhorar as fontes de informação: no espaço de dez dias, a mesma jornalista escreveu no Público: “(…) Wender e Nunes nem sequer se equiparam. Tal facto parece ser um forte indício de que ambos, afinal, poderão ir mesmo para o Sporting” (21/7); “O Guimarães dá-se a conhecer esta noite frente ao Benfica, numa festa em que será apresentado um ponta de lança proveniente do Sporting (…)” (30/7)
Fulminante, o encerramento de O Comércio do Porto!
Há 15 dias a notícia seria um rumor estúpido. Duas semanas depois o jornal já não existe!
Lembrei-me muito dos amigos que lá trabalham (e são vários) e genericamente de todos os que foram apanhados desprevenidos por esta notícia - digo sem receio que foi a coisa pior que me aconteceu durante as férias. Porque o desemprego é uma das sensações mais dramáticas que se pode ter, porque estavam a fazer um bom jornal e porque já lá trabalhei. Vivi em O Comércio do Porto, no final da década de 80, os momentos mais felizes e esforçados da minha profissão.
Saúdo - resta-me isso - a ideia de vários jornalistas de criarem um blogue sobre o jornal que não morreu. ocomerciodoporto.blogspot.com
Act (15h00): Saúdo também o blogue que os jornalistas de A Capital criaram (E também trabalhei em A Capital, em 1988).