Textos do mês Novembro 2005 ↓
Eis uma boa notícia, para quem tem vindo a insistir na necessidade de separar conteúdos publicitários e mensagem jornalística (é o meu caso…):
«Maria Fernandes lembra que um dos seus argumentos foi o facto de a rubrica Centro Comercial não dizer que se trata de publicidade. “Há outras revistas que o fazem. É o caso da Grande Reportagem, que curiosamente tem uma rubrica com o mesmo nome, mas que é identificada como publicidade”, diz.»
Por causa deste caso e da intervenção do Sindicato dos Jornalistas “A Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS) advertiu a 23 de Novembro a “TV Guia” para “a necessidade de respeitar o normativo ético-legal a que está obrigada em matéria de rigor informativo” no que respeita à distinção rigorosa entre actividade noticiosa e actividade publicitária.
O processo partiu de uma queixa da Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ), que solicitou a intervenção da AACS no sentido de se pronunciar sobre em que medida a elaboração de textos promocionais por jornalistas pode constituir manipulação do público e comprometer a imparcialidade destes perante o público.”
* mas nem todos. Há quem ache que assim está bem? (”A deliberação foi aprovada por maioria, com votos a favor de Maria de Lurdes Monteiro (relatora), Armando Torres Paulo, Sebastião Lima Rego, José Garibaldi, José Manuel Mendes, abstenção de Jorge Pegado Liz com declaração de voto e contra de João Amaral e Carlos Veiga Pereira.”
… já não pode ser generalista.
Os responsáveis do “La Sexta” dizem que “quanto à programação do novo canal, a aposta dos responsáveis vai para conteúdos dirigidos a um público jovem, com formatos inovadores e que sejam uma alternativa à programação generalista dos concorrentes.” (Meios e Publicidade)
Provavelmente, algum dos blogues que leio regularmente até escreveu sobre isso, mas se é assim não li - não esqueceria uma coisa destas!
A companhia norte-americana de aviação Jet Blue já permite ver televisão em directo, com vários canais. E no dia 22 de Setembro, o seu voo para Los Angeles protagonizou um caso absolutamente fascinante (felizmente foi só o susto): a maior parte dos passageiros via uma reportagem sobre o furacão katrina quando a emissão é interrompida e esse e outros canais passam a mostrar imagens de um avião que sobrevoava Los Angeles com dificuldades para aterrar. Era o seu próprio avião!
Os passageiros que aguentaram o choque foram acompanhando a chegada das ambulâncias, dos serviços médicos, dos bombeiros, da segurança, que isolou uma pista, enquanto noutro plano se via o avião às voltas de LA. Muitos telefonaram para casa ou para mais próximos a despedirem-se. E estes tambem a verem na televisão…
Três horas depois o avião aterrou e ficou o susto.
No futuro, com a introdução de banda larga nos aviões, até será possível entrar do avião em directo, através de uma webcam!
“Muitas vezes é preferível dar a esse anúncio a forma de uma notícia do que a de um comunicado, marcadamente publicitário (…). Pode-se dizer que esta [a publicidade redigida] não é mais do que um anúncio publicitário disfarçado de notícia, a fim de ter melhor aceitação por parte do público. (…) A notícia redigida confunde-se melhor com as notícias do próprio jornal”.
LAMPREIA, J. Martins, A Assessoria de Imprensa nas Relações Públicas, Europa América, Lisboa, 1999, 2ª edição, pág. 107/108
(sublinhados meus)
Ontem soube-se que Carlos Silvino seria libertado à meia noite. Uma hora má para as rádios, fracota para as televisões e uma dor de cabeça para os jornais - que por essa altura já têm a edição fechada.
Hoje só um jornal traz a reportagem da libertação de Silvino, com fotografia - o JN(o que significa que fechou por volta da uma da manhã!). Os outros fecharam antes e ou não referem a questão (como o Público) ou encontraram uma solução alternativa: o CM escreve por exemplo “À hora de fecho desta edição, Carlos Silvino estava a pouco mais de uma hora de ser libertado” (DN e 24H optaram por soluções aproximadas mas não tão sinceras).
O Público (com a Antena 1, a RTP e a Católica) e o Diário de Notícias (com a TSF e a Marktest) têm hoje primeiras páginas de sentido contrário: as suas sondagens presidenciais apontam para a vitória de Cavaco Silva à primeira volta e para que haja segunda volta (respectivamente).
Isso não pode deixar de causar perplexidade nos leitores/ouvintes, muito mais quando se percebe que, afinal, as sondagens são basicamente iguais: a do Público faz a ponderação dos indecisos e não respondentes; a do Diário de Notícias não (só os valores em bruto).
Esta disparidade interessou-me a ponto de promover o Forum de hoje sobre isso. Logo a abrir o director da Marktest desfez o mistério e, assim, ajudou-se a tentar esclarecer alguns ouvintes. Mas a esmagadora maioria estará, ainda agora, confusa.
Que dizer? Várias coisas, com uma mesma ideia:
1) Esta disparidade de metodologia perturba os leitores/ouvintes, as empresas de sondagens, os protagonistas e os jornalistas (esta falta de harmonização não interessa a ninguém, portanto);
2) As duas metodologias (com ou sem ponderação) são legítimas e aceites cientificamente; mas “ao calhas”… (eu meti água!)
3) Eu, como jornalista, leio - o melhor que sei - os dados que a empresa contratada me envia. Não sou eu que os elaboro nem escolho. Peço, portanto, que se entendam para facilitar o meu trabalho;
4) Ao contrário do que diz Pedro Magalhães no Margens de Erro, os técnicos não podem pedir apenas aos jornalistas que aprendam a mexer no assunto; qual é o seu papel?
PS - coincidência: o próximo Clube de Jornalistas é sobre isto (moderado por mim…). Com Pedro Magalhães… (Pedro: uma coisa é os resultados de uma sondagem “sugerirem“; outra muito diferente é darem certezas…)
ACT a 25/11: Não quero fugir com o rabo à seringa - e, repito, fui protagonista involuntário de uma trapalhada, ontem - mas não posso deixar de registar (com agrado) este novo texto de Pedro Magalhães.
No Público de hoje o texto “Por que dão as sondagens resultados tão diferentes?”. Um excerto: “Como deve um cidadão informado reagir perante duas sondagens que, no mesmo dia, apresentam tendências de voto exactamente opostas?“
… vai sempre a tempo.
Numa interessante (e oportuna) entrevista de Dina Margato a Constança Cunha e Sá no JN de domingo, diz-se isto:
“Maria João Avillez entrevistou a irmã na qualidade de candidata à Câmara de Lisboa e optou por não falar no parentesco“.
Na altura não me apercebi. Mas concordo plenamente com a editora de política da TVI:
“Acho que se impunha que assumisse. Ela era uma candidata, afinal. Já fazer a entrevista poderia ser questionável; mas devia tê-lo dito“.
Eugénio Queirós contou no seu blogue, Bola na Área, alguns pormenores de um caso ocorrido há quase 20 anos, em que ele e eu fomos os protagonistas (trabalhávamos no falecido jornal Gazeta dos Desportos).
Não me orgulho dela, e na altura foi doloroso, mas já que o Eugénio a conta e tem a delicadeza de me poupar, acuso-me: o outro tipo sou eu!
Eis uma estratégia de comunicação perfeita:
Sócrates e o governo explicaram, durante uma semana, em “on” ou “off”, que o aumento do ordenado mínimo não poderia ser muito mais do que 2,3%, o que motivou críticas dos sindicatos.
Nos últimos dias os jornalistas dividiram-se entre os que falavam claramente entre os 2,3 por cento e os que iam um pouco mais longe, 2,5%.
Hoje Sócrates chegou à reunião da concertação e anunciou 3%.
Surpreendeu tudo e todos e conseguiu, até, uma coisa insólita, o aplauso de algumas confederações patronais!
Dá ideia que a polémica morreu à nascença e o assunto, amanhã, já não será notícia.
(O que fez Sócrates? Manteve a expectativa muito baixa, resistiu a qualquer tentação de dar um sinal sobre o que ia fazer, foi disciplinado, e quando chegou o momento deu a estocada - nem mesmo os sindicalistas estariam à espera de um aumento de 3 por cento)
(obrigado Pedro)
No Diário de Notícias de ontem há um texto a merecer reflexão: numa página, da secção de desporto, fala-se num jovem jogador do Rio Ave FC (17 anos), chamado Fábio Coentrão (”não joga na Superliga (quatro minutos esta época frente ao Braga), não joga pelas selecções - foi chamado para um estágio na segunda e terça-feira dos sub-18, depois de ter perdido um por lesão -, não é propriamente famoso“) que “é seguido por um clube estrangeiro”, sobre quem fizeram um “relatório delhadado e preciso” e cuja transferência “pode salvar já o orçamento” do clube.
A questão é que para além de não haver uma fotografia do jogador, este não faz uma declaração, sequer, ao jornal, não se diz que clube é esse nem quem elaborou o dito relatório. Sobre o hipotético negócio apenas se refere que o jogador é representado pelo “empresário do momento”, Jorge Mendes.
O jornalismo é feito de constrangimentos e de limitações. Escrevemos tantas vezes sobre casos dos quais não sabemos tudo e preservamos a identidade das fontes por diversas razões.
Mas devo dizer que este artigo, em concreto, me parece mal defendido pelo jornalista. Não duvido que seja verdade o que lá vem escrito (até conheço relativamente bem as potencialidades do dito jogador, uma vez que assisto a quase todos os jogos do Rio Ave, do qual sou sócio), e que ele possa ser transferido, mas eu teria feito de outra maneira - nomeadamente dando mais informações sobre o que está em causa (ou recusando revelar só uma parte da história).
Ao ler esta deliberação da AACS descobri:
- um jornal (diário?), com sede em Lisboa, de que nunca tinha ouvido falar, chamado Notícias da Manhã (é o antigo O Dia?);
- um diário publicado na Beira Interior, chamado “Diário XXI“;
- Uma empresa de sondagens chamada Regipom, que de acordo com a lista da Marktest, foi a terceira mais activa nas autárquicas;
- E, finalmente, que “Os resultados (…) foram divulgados no “Notícias da Manhã” , “O Primeiro de Janeiro”, “Correio de Azeméis”, “O Regional” e “Diário XXI” (on-line), publicações que integram, tal como a Regipom – Pesquisa e Opinião de Mercado, Lda., o grupo de comunicação social “Folio Comunicação Global, Lda.,” com sede no Porto.”
Acabo de ver a gravação do Clube de Jornalistas de ontem e mesmo no final foi feito um comentário pelo João Alferes Gonçalves que me sugere este texto. Diz o João que uma das várias particularidades que distinguem o jornalismo dos blogues (a batedeira e o sumo; o artefacto e o conteúdo…) é o facto de, ao contrário do que acontece com o jornalismo, não haver entre os bloguistas uma separação deontológica de incompatibilidades tão evidente (”tratam de assuntos em que estão envolvidos”).
O João referiu-se genericamente à esmagadora maioria dos casos, e até com alguma compreensão pela situação, mas eu, de alguma forma, enfiei a carapuça.
E gostaria de partilhar algumas ideias:
- no caso em apreço, sempre defendi que este blogue não faz jornalismo;
- até me esforcei por separar bem as águas, com aquele projecto de guia ético que tento seguir;
- mas há, obviamente, um problema, a partir do momento em que, sendo jornalista, escrevo sobre jornalismo: mesmo que nunca escrevesse sobre rádio, nos comentários poderiam aparecer referências à TSF (teria de tirar os comentários);
- escrevendo sobre rádio, e apesar de várias limitações de consciência e institucionais, obviamente que não posso ignorar, pela positiva ou pela negativa (o que pode criar outro tipo de problemas éticos, mas internos), a TSF - apesar de ser o sítio em que trabalho;
Tento ter consciência permanente da precaridade da situação; apesar disso irei mantê-la enquanto for razoável. Mas, já agora, nem este blogue faz jornalismo nem é o trabalhador da TSF que aqui escreve. Quem é então?
Talvez o seu duplicado???
No Público de hoje: “Candidatos fictícios fizeram debate autêntico na série Os Homens do Presidente” (sublinhado meu)
- Trata-se de uma série de televisão (ficção) e da gravação de um episódio;
- Os candidatos são “fictícios” (os actores Alan Alda/MASH e Jimmy Smits/NYPD Blue);
- O texto fala em “encenação de frente-a-frente”;
Assim sendo, como é que o debate pode ser autêntico?