Textos do mês Janeiro 2006 ↓
Apesar da rectificação à notícia do Expresso de sábado, parece não haver dúvidas de que o RCP vai evoluir para uma rádio com mais informação.
A dúvida é para quê, em concreto? Três cenários são previsíveis nesta altura:
- uma rádio como a RR, que tem noticiários 24 horas por dia e, em alguns horários, espaços alargados de informação (12-13, 23-24; 18-18.30) e muito sucesso de audiência;
- uma rádio de notícias, sobretudo de segunda a sexta, como a TSF, dirigida a um público-alvo muito definido (que, publicitariamente, é compensador);
- ou, sendo propriedade da Prisa, uma rádio como a SER.
A SER é um fenómeno em Espanha, com uma liderança incontestada nas audiências. Trata-se de um formato muito específico de Espanha (uma idiossincrasia local, da família “talk and news”), baseado em notícias e conversa, com tertúlias/debates e fóruns com ouvintes - e muito desporto. Não há espaços de música na SER, mas há muitas rubricas, muitos jornalistas, muitos conteúdos (veja-se a lista de rubricas do espaço 16-19, La Ventana!).
Três ideias:
- para a rádio portuguesa é bom o dinamismo que o RCP (com este ou outro nome) trouxer;
- a grande questão tem a ver com os custos e a dimensão do mercado publicitário português, no que diz respeito à rádio (por isso, não me admirava que, mesmo sendo a Prisa, o lema fosse avançar devagar!).
- uma Cadena SER em Portugal seria sempre uma boa notícia;
Adelino Gomes escreveu ontem sobre rádio (a propósito das programações sobre os 250 anos de Mozart). A dado passo diz isto:
“A estação [a Renascença] que faz, por certo, os noticiários mais seguros e equilibrados da rádio portuguesa. Mas também os mais cinzentos e burocráticos“.
Não está em causa - nem podia estar - a opinião de Adelino Gomes (nem, neste contexto, a minha). Mas questiono-me se o primeiro pressuposto é consequência do segundo. Ou vice-versa.
Ou seria possível conciliar noticiários seguros e equlibrados sem serem cinzentos e burocráticos?
Manuel Pinto despede-se hoje dos leitores do JN, concluídos os dois anos não renováveis como provedor.
Manuel Pinto pode estar tranquilo: dignificou a função e valorizou o jornal (terá, mesmo, criado um novo estilo, conciliando jornalismo e ciência).
Da sua última crónica, sugestões que reforço:
“Se este Jornal quiser abrir-se mais - e eu julgo que só teria a ganhar com isso - precisa de tomar medidas, algumas delas bem simples como seja dar mais dignidade e, porventura espaço, à secção de cartas do leitor; publicar com mais destaque os endereços vários para os quais os leitores possam contactar os departamentos do Jornal, incluindo o do próprio provedor; e, sobretudo, instituir com regularidade um espaço de informações sobre as iniciativas, opções e critérios relacionados com a vida do próprio jornal“.
Um abraço, Manuel, deste teu leitor fiel.
Um fax forjado para tramar alguém pode dar uma notícia? Não.
E se não há certezas sobre se o fax foi forjado? Investigue-se, mas sem noticiar até haver certeza.
Mas se o fax envolve pessoas conhecidas? Pior.
No entanto, o tal fax já circula pela net e há muita gente a saber… Isso é um rumor, não é jornalismo.
Estas formulações parecem estúpidas, de tão básicas. Mas por aquilo que me disseram deram origem a mais do que uma notícia. Pelo menos aqui.
(O remetente pelos vistos não existe; o destinatário garante que não o recebeu; e forjar um fax e fazê-lo circular pela internet, anonimamente, é elementar).
Vinha a ouvir a Antena 3 esta manhã e apercebi-me de “uma grande operação” prevista para a próxima semana: perguntas “picantes” a cinco sex-simbols portuguesas (quase todas modelos, se me lembro bem).
A rádio portuguesa, com excepção da Cidade Fm, é muito masculina. E se há casos em que isso é mais ou menos previsível (a TSF, por exemplo), outros há em que se percebe pior: como se explica que 65 por centos dos ouvintes da Antena 3 sejam homens, se 51 por cento dos portugueses são mulheres? As mulheres ouvem pior? Ou não gostam da rádio que lhes é oferecida?
O exemplo acima, não sendo equilibrado com cinco homens, responde a esta última pergunta e é uma falta de respeito pelas ouvintes! Revolta-te Ana Galvão!
PS - há quanto tempo a página da A3 não é actualizada? Há quanto tempo Ana Lamy não está nas manhãs… E o próprio sítio oficial das manhãs também parece um bocadinho desleixado…
Jorge Sampaio condecorou na semana passada várias “personalidades”, entre elas o advogado Morais Leitão, o empresário Rui Nabeiro, Murteira Nabo ou Pinto Balsemão, todos com a mesma distinção.
No Expresso de sábado, pág. 15: “Sampaio condecora Pinto Balsemão“. 10 linhas de texto, com uma foto a cores: Pinto Balsemão a receber a comenda.
É curioso este comportamento: os empresários de média reclamam - e eu acredito - a máxima independência nas suas redacções - menos quando se trata de si próprios!
Das duas uma: ou há instruções das administrações para valorizar os factos em que são protagonistas ou são os jornalistas a auto-censurarem-se. De qualquer uma das formas é perigoso. (penso que o Expresso não noticiaria se Balsemão não tivesse recebido a comenda).
(uma nota: estou a valorizar este caso porque ele surge na linha de outros que se passaram nos últimos tempos no Expresso, várias vezes aqui referidos).
Antes de mais, devo dizer que respeito a opinião que vou citar, muito mais porque - como sempre aqui defendi - as incompatibilidades remetem-nos em primeiro lugar para uma esfera de intimidade; só quando passam para o domínio público é que têm uma dimensão colectiva.
Mas o facto de a respeitar (ou seja, de a considerar), não significa que não a possamos discutir. Pelo contrário.
Diz Ana Lourenço (da SIC) na Notícias de Sábado de ontem: “(…) não voto, porque não quero ver-me a dirigir uma entrevista no sentido crítico com uma pessoa que eu próprio elegi. Os jornalistas não deviam ser militantes de partidos nem sócios de clubes“.
Algumas notas:
- a última frase é distinta do restante; uma coisa é não votar pelas razões expostas, outra ser militante de um partido (a minha posição é que, prevalecendo os direitos de cidadania do jornalista, este não pode fazer jornalismo nas áreas que tenham que ver directamente com a sua adesão);
- mas é a parte inicial a mais importante. Ana não vota (ou seja, não se desloca à mesa de voto para formalizar a escolha), mas não acredito que não tenha, nestas ou em outras eleições, “o seu candidato”, aquele que teria ajudado a eleger se tivesse votado e ganhasse. Qual é a diferença?
- para fazer a entrada da tal frase o jornalista da NS escolheu a expressão “Isenção total”. Ora, é por não existir (ou não dever existir), em matérias de cidadania, por exemplo, isenção total, que o não-voto me parece, primeiro, errado e, depois, inútil;
(penso que poderíamos trocar uns postais sobre esta questão durante mais alguns dias, não?)
Volto ao tema da escrita analógica e da escuta em hiperligação para referir o que fez ontem Fernando Alves nos seus Sinais: a propósito de uma árvore que cresce num muro, o jornalista da TSF sugeriu aos seus ouvintes que a vissem na página da própria TSF (aqui, chamando a crónica de 18/1/06). E ela lá está.
Isto significa (pelo menos) duas coisas:
- que o Fernando Alves, ao escrever a sua crónica de rádio, já pensa em hiperligação (e que acautelou a colocação da imagem, porque ela não apareceu sem mais nem menos);
- que o Fernando Alves, autor das melhores metáforas na rádio portuguesa, desistiu de estar a descrever algo que podia ser visto (mais a mais, a árvore, botanicamente, não tem nada de especial) e concentrou-se no que o motivou: ela ter crescido numa árvore muro…
Não é só a rádio - como suporte - que está a mudar; a escrita também!
[obrigado Edgard]
No dia 6 de Janeiro a BBC noticiou (entre outros meios) que um ouvinte morrera em directo durante um programa de rádio em Liverpool;
No dia 14 soube do caso e fiz um texto neste blogue;
Ontem, 17, o DN publicou esta notícia (pág. 41): “Um ouvinte de uma rádio do Reino Unido morreu sexta-feira [dia 13?] enquanto participava num directo num programa. O homem, de 60 anos, foi vítima de um ataque cardíaco. Quando a chamada ficou suspensa, o apresentador ligou à polícia e dirigiu-se para casa do ouvinte, onde já estavam os médicos“.
um comentário meu: para que fique claro, a questão do plágio nem se coloca, porque me limitei a referir uma informação da BBC; mas por que é que o DN publica a 17 uma notícia que aconteceu a 5 de Janeiro (uma quinta…)? Coincidência? Quando se copia, ao menos que saia bem!
ACT a 19/1 só para isto: este caso mostra uma outra coisa, a diferença entre um jornal e um blogue (era preciso?): um jornal não publicaria uma notícia com 11 dias de atraso [exemplo disso mesmo, a notícia do DN, que diz “sexta-feira”: ou foi distracção/incúria ou a palavra foi colocada lá para justificar a própria notícia], a não ser que fizesse uma abordagem diferente (interpretativa); num blogue, que não faz jornalismo, a actualidade não é critério e mesmo a novidade é muito menos importante.
Da edição desta semana - novo director, velhos hábitos:
1) A notícia da primeira página “China faz de Portugal quinta potência na Europa” (apresentada como sendo novidade) saiu há mais de um mês em diversos lados (aqui, aqui, aqui, ou aqui, para não me alargar!)
2) Coluna de “Últimas” com cinco notícias: uma é sobre a edição do Courrier Internacional, outra diz isto: “Pedro Abrunhosa, The Gift, e Donna Maria vao actuar ao vivo próxima semana das tardes na SIC, «Contacto». Ao longo de duas horas diárias, os apresentadores Rita Ferro Rodrigues, Nuno Graciano e Cláudia Semedo pretendem criar um novo ponto de encontro entre gerações“.
3) Cartas dos leitores: 9 cartas, sendo que apenas cinco são de leitores, as restantes quatro (as últimas quatro na paginação…) são de Jorge Coelho, Martins da Cruz, Carlos César e do jornalista do Diário de Alentejo António José Brito (o Expresso continua a esconder ou desvalorizar as cartas que de alguma forma o contestam).
Em Inglaterra, durante um fórum (”phone in”) da rádio Magic 1548 (de Liverpool) um ouvinte morreu em directo!
A história é simples de contar: primeiro esse ouvinte ligou para a polícia a pedir ajuda, mas a polícia informou-o de que tinha outras prioridades.
A seguir o ouvinte ligou para o programa de Pete Price (de que era participante regular) e, quando estava a falar, morreu, com um ataque no coração: o animador do programa pediu, através da rádio a ajuda de algum vizinho e abandonou ele próprio o programa. Quanto lá chegou viu o ouvinte sentado, com o telefone na mão.
A polícia já lamentou não ter respondido à chamada.
Pete Price comentou “apenas me satisfaz saber que ele morreu fazendo uma coisa de que gostava, todos nós pudemos ouvir as suas últimas palavras”.
O artigo de José Vítor Malheiros (terça, 10/1/06) suscita uma série de questões muito importantes (”a designação de “estágio curricular” ter sido indevidamente apropriada por muitas empresas, que a utilizam apenas como uma ténue cobertura legal para explorar gratuitamente a mão-de-obra de recém-licenciados“).
Algumas das propostas que apresenta não serão concretizáveis (apesar de bem intencionadas), como “obrigar as empresas que pretendem acolher estagiários a uma certificação, que exigiria o cumprimento de certos requisitos, e publicar a lista de empresas assim credenciadas“, mas outras são muito pertinentes: contra a perpetuação de estágios curriculares, é preciso aumentar a fiscalização às empresas prevaricadoras*.
E - JVM não refere - faz falta maior intervenção do Sindicato dos Jornalistas sobre esta questão. Aliás, é impressão minha ou o Sindicato desapareceu de circulação nos últimos meses, para a além das questões obrigatórias?
* Já uma vez aqui escrevi: não há uma verdadeira entidade patronal, como parceiro social, do sector dos media, uma associação interveniente e activa, que, representando os principais grupos, pudesse negociar/impor alguns comportamentos
Dois citações (do Público de hoje):
“a revelação de uma fonte confidencial constitui um dos comportamentos mais indignos de um jornalista“
“Nenhum jornalista pode permitir-se ser julgador único de uma situação que, a desembocar na denúncia de uma fonte confidencial, atinge todo o colectivo dos jornalistas e a credibilidade da profissão” (…) a decisão de denunciar uma fonte “põe em risco a seriedade e a credibilidade de todos os jornalistas e de todos os órgãos de informação“.
(”O processo que levou a estas considerações remonta a 1999: o ex-director adjunto do Jornal da Madeira, Rui Fino, pediu a condenação solidária do conselho deontológico (CD) do SJ, então presidido por Óscar Mascarenhas, por este o ter publicamente criticado pelo facto de denunciar como fonte confidencial daquele diário um deputado socialista, “com o intuito de o prejudicar”.)
Uma nota pessoal: já várias vezes abordei aqui esta questão; embora haja quem não admita a revelação da identificação de uma fonte anónima em circunstância alguma, eu considero uma excepção quando há má fé deliberada e comprovada da fonte e a situação precisa de ser explicada aos leitores/ouvintes/telespectadores. Não foi manifestamente este caso.
Abro uma excepção aos temas do dia-a-dia neste blogue para contar um caso que me parece, no mínimo, muito curioso (embora eu seja suspeito…): é sabido que a China tem feito o possível para limitar a liberdade de expressão, controlando o mais possível a internet (já que comunicação social convencional é mais fácil de apertar). Este e todos os blogues alojados no blogspot não podem ser lidos na China - porque o servidor está bloqueado.
Como é que eu sei? Descobri por acaso o blogue de um português residente numa cidade chinesa chamada Shantou (província de Guangdong/Cantão), onde dá aulas de inglês.
Diogo Alvim mantém o Blogadíssimo actualizado com regularidade, mas não o consegue ler!
Curioso, não?