Textos do mês Maio 2006 ↓
O Expresso tem um problema grave - que o SOL não deixará de aproveitar: é provavelmente o jornal mais influente, mas é mais temido do que respeitado; é mais odiado do que admirado;
E um jornal não conseguirá viver muito tempo assim - lembram-se de um jornal chamado O Independente?
Existe uma má-vontade generalizada relativamente ao Expresso - resultado talvez da velha máxima quem com ferros mata com ferros morre (a arrogância do líder, a sobranceria da distância, o desprezo do poder absoluto…).
O problema não é de agora, mas nunca como agora o Expresso tem dado argumentos aos seus detractores - as notícias da primeira página estão na primeira linha (ainda esta semana se lia «Benfica reage a notícia do Expresso», num direito de resposta).
O que se passou este fim de semana com a manchete de Freitas do Amaral é - do meu ponto de vista - um exemplo acabado da má-vontade que existe.
A manchete é «Freitas cansado no MNE» e retrata fielmente (com a técnica de síntese da tituleira) o que disse o ministro dos Negócios Estrangeiros na entrevista. Se fosse «Freitas cansado do MNE» seria uma coisa muito diferente. Mas não é. Parece-me que Henrique Monteiro tem razão no comentário que fez. Mas o problema é muito mais grave do que parece: uma operação de relações públicas dava jeito, mas, claro, a montante estão as próprias notícias da primeira página do Expresso (independentemente deste caso).
PS - Mais, o erro foi de Freitas.
O Expresso em Portugal e vários jornais um pouco por todo o mundo impedem os seus jornalistas, que trabalham informação económica/bolsista, de comprar e vender acções (sugerindo, em alternativa, a opção por fundos de investimento).
Em Portugal há - parece-me - um problema novo: há - dizem-me - cada vez mais jornalistas que fazem informação desportiva a apostar em casinos na internet.
A questão é esta: há ou não incompatibilidade entre um jornalista que faz actualidade futebolística e que aposta num determinado resultado de um jogo?
Se esse jornalista tiver alguma informação que possa influenciar - hipoteticamente - o resultado final (uma equipa que recebeu incentivos para ganhar ou perder) vai noticiá-la?
Um jornalista que acaba de perder 500 euros porque não acertou num resultado conseguirá a isenção suficiente para escrever a crónica desse mesmo jogo?
Provavelmente, dirão alguns, é apenas um delírio…
Entrámos esta semana, «oficialmente, naquele que é, em cada ano, o momento mais crítico do jornalismo desportivo: a época das contratações.
A partir de agora vão surgir centenas de notícias (muitas delas «notícias») sobre transferências de jogadores e treinadores. Mas - diz uma estatística empírica - só 10 ou 20 por cento dessas notícias se confirmarão.
Todos temos a consciência de que, nestes três meses, a comunicação social vai ser usada por empresários, jogadores e dirigentes para «forçar» transferências. Tenho a consciência, também, de que a maior parte das vezes não é possível fazer uma segunda confirmação de uma informação que chega; ou que, mesmo perante uma boa informação, haverá os clássicos desmentidos - que a seguir são desmentidos pela realidade.
É por isso que falo em período crítico: se forem muito rigorosos não terão «cachas»; mas não sendo rigorosos nas práticas técnico-deontológicas os jornalistas acabarão por publicar muita coisa que, afinal, é lixo!
É, obviamente, apenas um(a tentativa de fazer um) trocadilho, mas quando o provedor dos leitores do DN escreve «Os títulos de primeira página são uma das contestações sistemáticas dos leitores junto dos provedores da imprensa escrita» dirigimo-nos a quem?
Imprensa escrita? Por oposição à imprensa radiofónica?
Como se lê no Ciberduvidas, «Imprensa escrita é pleonasmo agravado»
A propósito da manchete do dia 14 de Abril e do discurso de Cavaco Silva («Cavaco critica deputados faltosos» e «Cavaco puxa orelhas a deputados»), o Expresso escreve este sábado «Tal não aconteceu, como se sabe, e disso nos penitenciamos».
A Direcção do jornal apresenta, a seguir, aquela que pode ser entendida como uma outra explicação para o sucedido: como Cavaco referiu o assunto no discurso, mas de uma forma muito dissimulada (e o jornal apresenta uma citação desenvolvida), com aquela antecedência, pode ter havido especulação relativamente à informação dada pela fonte de Belém.