Textos do mês Junho 2006 ↓
«A notícia de um alegado suicídio, no dia 2 deste mês, que não foi amplamente noticiado pelos jornais, foi confirmado a O Independente pela PSP do Porto (…)»
Ou seja:
- nem sequer foi um suicídio mas uma tentativa;
- uma tentativa de suicídio não é notícia (não deve ser…);
- o jornalista de O Independente escreve que a imprensa diária não a noticiou «amplamente»! Ainda bem, digo eu. Mas, já agora, noticiou como?
Mau de mais para ser verdade, no fundo. Resta acrescentar que, na abertura desse texto, se pode ler ainda: «(…) e um alegado suicídio que não teve repercussão na Imprensa têm deixado um dos maiores hospitais do país em polvorosa». E eles a darem-lhe com o sensacionalismo!
Ontem ouvi na rádio um dos muitos jornalistas que estão na Alemanha a fazer reportagem dizer isto (ia a conduzir, não posso garantir que tenha sido exactamente com estas palavras):
«(…) estamos aqui todos a remar para o mesmo lado, para levar a selecção ao título mundial».
É para isso que lá estão os jornalistas ou é para informar os seus, neste caso, ouvintes?
É para isso que lá estão os jornalistas ou é para exercer a sua função jornalística (muitas vezes, como se viu no último mundial, até são coisas incompatíveis)?
O que distingue um jornalista de um adepto? Apenas o facto de escrever, falar ou aparecer na televisão? Há adeptos que também escrevem, falam ou aparecem e não são jornalistas. Há-de haver mais alguma diferença…
Penso que está é uma questão nuclear no exercício jornalístico. E não são muitas as questões nucleares nesta actividade.
Em tempos critiquei a Antena 3 por continuar a fazer passatempos em que obriga(va) os participantes a ir aos estúdios em Lisboa.
Nesta altura o mesmo programa da Manhã da 3 está a promover um passatempo muito mais inteligente, envolvendo a primeira série dos DVD de Donas de Casa Desesperadas – e que por isso merece aplauso: pede aos interessados que enviem uma foto através da Internet.
É, sem dúvida, muito mais democrático e muito mais… serviço público
Público e DN noticiam hoje a contratação da filha de Jorge Sampaio pelo ministro Silva Pereira, como sua adjunta jurídica.
Manuel Pinto Madalena Oliveira diz, referindo-se à do Público, não conseguir “perceber o que há de notícia neste texto que tem por título «Ministro da Presidência nomeia como adjunta filha de ex-Presidente Jorge Sampaio».“
Eu tenho mais dúvidas - que gostava de partilhar:
- por um lado pode ser apenas a exploração de um nome conhecido, puro voyeurismo tabloide (o público quer saber o que faz a filha do antigo Presidente…);
- por outro, entendo como uma das missões mais nobras do jornalismo o escrutínio do poder - e as duas notícias são extremamente cuidadosas e discretas;
- é notícia a filha do ex-presidente ser contratada pelo actual governo? Sim. Se a filha do ex-Presidente trabalhasse numa empresa privada ou tivesse sido contratada através de outro critério, que não o livre arbítrio, não o seria;
- curioso que os dois jornais mais «sérios» trazem a notícia, mas nem Correio da Manhã nem 24 Horas o fazem. Não sabiam? Não acharam relevante? Invertem-se os pressupostos?
- É fácil acusar DN e Público de tabloidismo. Não o faço. As duas notícias são muito ponderadas.
[À margem: é injusta a ideia de frete que fica (não das notícias mas) da contratação?
O pai de Vera poderia ter-lhe explicado a diferença, muito importante na política, entre o ser e o parecer]
ACT a 29/6/06: Vera Sampaio publica uma carta ao director no Público de hoje. Um excerto: «Permito-me assinalar quão arbitrária e injusta pode ser uma “notícia”, avançada sem qualquer motivo razoável, e como é difícil para os visados “com nome” defenderem-se deste tipo de insinuações. Não esperava, confesso, esta forma de populismo mediático da parte do Público». No DN não há carta de Vera Sampaio.
Ontem, antes das onze da noite, Ribeiro Cristóvão fechou assim a emissão especial do Mundial: «…da super-equipa que fez a melhor emissão da rádio portuguesa».
Até pode ter sido a melhor emissão da rádio portuguesa, mas como é que Ribeiro Cristóvão - que esteve três ou quatro horas seguidas na cabina - sabe como foram as outras? Não sabe, evidentemente. A frase é mais um chavão, dito independentemente do contexto. Mas qual o valor de uma coisa destas?
Quem queremos convencer assim?*
* Lembra-me - e já o critiquei aqui - a muleta de Mário Crespo no final do 60 Minutos, «na excelência de conteúdos que é a Sic Notícias»
Nos três anos do Blogouve-se apresento-vos um livro virtual com muitos dos textos escritos desde Junho de 2003.
Chama-se precisamente Os textos do Blogouve-se e, não sendo nada de especial, espero que tenha alguma utilidade (e interesse, já agora).
PS - Já se aperceberam, certamente, da moderação de comentários. Não é uma forma de censura, é, antes, exercitar a cidadania e o respeito colectivos (os que comentaram nas últimas semanas sabem que não houve qualquer entrave)
A Visão recupera - e bem - uma distante notícia do Jornal de Notícias em que se dá conta de como um ex-candidato à liderança do PSD (e a primeiro-ministro?) atribuiu subsidios anuais a alguns jornais que se publicam no concelho de que é presidente da Câmara, em troca de publicidade institucional, e desde que estes «adoptem uma informação onde predomine a realidade específica do concelho, tendo em vista a promoção do seu desenvolvimento e os interesses da respectiva população, acompanhando adequadamente os actos públicos bem como toda a actividade da Câmara e empresas municipais» (sublinhados meus).
PS - o conceito de democracia do referido ex-candidato a líder do PSD revela-se também nisto: nas últimas autárquicas recusou dar uma entrevista à TSF porque a TSF iria fazer uma entrevista nos mesmos moldes ao líder do principal partido da oposição local. Este falou, aquele não…
ACt a 30/6/06: Resultados da Sonda Central de Informação/Meios e Publicidade, relativa a Junho:
«1 - Este é um caso que deveria ser denunciado às autoridades competentes?
a) Sim - 24%
b) Sim, porque ultrapassa a fronteira entre as áreas comercial e editorial - 20%
c) Sim, porque tratando-se de um organismo público assume contornos ainda mais graves - 31%d) Não - 5%
e) Não, porque os meios não foram obrigados a assinar - 20%»
Act a 4/7/06: A Câmara de Gaia, em face das reacções, decidiu revogar os protocolos, «porque não somos nem desejamos ser condicionadores de qualquer forma da liberdade de expressão». Fez bem.
Na primeira página do Publico de hoje:
«Alemanha e Inglaterra ganham e evitam encontrar-se»
Erros destes não deviam acontecer, mas acontecem - o que me surpreende é o jornal não aproveitar a sua página on line para colocar, de imediato, uma rectificação. Os leitores merecem, não?
O JN publicou no dia 10 de Junho uma entrevista com Cavaco Silva - mas a entrevista resulta de um conjunto de perguntas enviadas previamente para Belém e assim respondidas (por exigência do Presidente). Como é que se sabe isto - que habitualmente não se sabe? Porque o JN o revela no próprio texto («Não é uma entrevista nos moldes ortodoxos - presencial, com um ping-pong de pergunta-resposta. O inquérito foi previamente enviado e o Presidente da República devolveu as suas respostas por escrito. Mas nem por isso se perdeu o interesse de algumas respostas»).
Chama-se a isso respeito pelos leitores…
ACt a 22/6: João Alferes Gonçalves na página do Clube de Jornalistas desenvolve o assunto. Basicamente, o JAG contesta a possibilidade - por mim admitida, em certas condições - de fazer uma entrevista nesses moldes. Entre outros, usa este argumento: «A entrevista pressupõe uma relação dialéctica entre o jornalista e o entrevistado. O jornalista faz perguntas sobre determinado assunto e deve ter a possibilidade de questionar as respostas do entrevistado». Eu acrescento: mesmo por escrito, não pode o jornalista questionar as respostas? Penso que sim. Mas, obviamente, estaremos todos de acordo com os pressupostos do João. Na rádio e na televisão estamos - por enquanto? - livres dessa exigência.
Se a primeira página diz “Imigrantes enchem prisões” e o lead afirma que «Catorze por cento dos reclusos que cumprem pena nas cadeias portuguesas são estrangeiros» qual é a responsabilidade dos restantes 86 por cento?
PS - pelos vistos, o Conselho Deontológico do Sindicato reprovou a notícia. Mas pela página do Sindicato não chegamos lá (às 18h30 de 16/6).
Do meu ponto de vista, não é serviço público o relato, directo e integral, do jogo do Brasil feito esta semana pelo principal canal de rádio desse mesmo serviço público, a Antena 1.
Do meu ponto de vista, o principal canal da rádio do Estado português não pode ocupar duas (mais?) horas da sua emissão com o relato de um jogo do Brasil - não é adversário de Portugal, não é a meia final, não é a final.
Não contesto as horas que a Antena 1 está a dedicar ao Mundial de Futebol, sobretudo quando assentes na selecção nacional (embora se possa considerar um exagero para um canal que se afirma generalista e é… de serviço público). Contesto a perda de referências na rádio que deveria (tinha que) ser um padrão para todas as outras.
PS - Há uma diferença muito importante entre o serviço público da televisão e o da rádio - este, não precisando de publicidade, não precisa de lutar pelas audiências; e se não precisa de publicidade é porque se entende(u?) que deveria manter uma programação diferente.
ACt a 19/6: Paulo Sérgio, o subdirector da RDP com o pelouro do desporto (e, portanto, a coordenar toda a operação na Alemanha) contactou-me, explicando que o relato do Brasil se faz numa lógica de serviço público para a comunidade imigrante brasileira e numa aposta de lusofonia, transmitindo o mundial para os países africanos de língua oficial portuguesa, o que - diz o Paulo - acontece pela primeira vez na história da rádio em Portugal.
(Aproveito para esclarecer uma coisa: não acredito que o relato do Brasil na Antena 1 signifique boas audiências. Mas não é essa a questão essencial - mais 1 ou mais 100 mil ouvintes, o que me motiva é perceber o que será o serviço público de radiodifusão em Portugal).
Nem de propósito: «A falta de coragem em assumir o custo social de ter um serviço público de televisão arrasa com qualquer tentativa séria e coerente de fazer uma programação cuidada e de referência, por maior que seja a vontade e empenho dos seus responsáveis. Na realidade, inviabiliza que o serviço público se torne instrumental na definição de uma paisagem audiovisual diferente, mais completa e dinâmica. Os responsáveis do serviço público vivem a disputar lideranças de audiências para melhorarem o valor dos seus espaços comerciais» (obrigado FRC). A questão é que a rádio pública não tem publicidade. Se tivesse seria a mesma coisa?
ACT a 21/6: «Transmitir os relatos daquelas selecções é uma forma que a Antena 1 encontrou para integrar aquelas comunidades. Se não for a Antena 1 quem o fará?Ser a rádio pública portuguesa a transmitir os relatos das selecções do Brasil ou de Angola é uma consequência do alheamento que a Lei da Rádio em Portugal insiste em cultivar, ao não prever uma série de formas alternativas de comunicação que a rádio poderia disponibilizar»
Volto a um tema já abordado mais do que uma vez, agora reactivado pelo Mundial de Futebol e, sobretudo, pelo fracasso colectivo de domingo: ninguém acertou na equipa titular que Portugal apresnetou frente a Angola.
E no entanto, durante toda a semana, não houve repórter que não fizesse a sua aposta - aposta não é um conceito jornalístico.
Por isso, serei o primeiro a aplaudir o director de informação que vier a determinar o fim deste exercício de «jornalismo de expectativas», sem qualquer rigor.
(«A aposta TSF» é, neste contexto, um exemplo. Aplica-se a todas as rádios, televisões e jornais que, sem fundamento, tentam adivinhar a equipa que vai jogar)
Lembram-se deste caso?
Pois, via José Carlos Abrantes, tomei conhecimento de outro caso, muito parecido: agora foi a vereadora lisboeta Maria José Nogueira Pinto a convocar os directores e a conseguir notícias assinadas ao mais alto nível…
«”Noticiadas no dia seguinte 31 de Maio, as referidas ‘linhas mestras’ foram anunciadas não numa vulgar conferência de imprensa, como seria usual, mas numa sessão para a qual a referida vereadora, inteligentemente, convidou os directores dos principais jornais nacionais (fazendo-os sentir como se tivessem tido acesso a informação privilegiada).(…) Há que conceder que os objectivos da vereadora foram atingidos: Correio da Manhã e Diário de Notícias publicaram notícias escritas pelos próprios directores; Público deu abertura da secção Local. (…) Mas, se todos divulgaram, o DN foi mais longe com notícia assinada pelo director»
Se a moda pega, os directores dos jornais têm de contratar outros directores para dirigir!
Mais a sério: a coincidência dos dois casos parece apontar para, por um lado, a disponibilidade dos directores em ir a alguns serviços e, por outro, para um paradigma muito elevado: a partir de agora o objectivo (o sonho) de cada assessor de imprensa, na definição de uma estratégia de comunicação, é conseguir o envolvimento dos directores.
Ciúmes?
Isto está suportado como?
«Telemóvel fez explodir oficina de pirotecnia»
Aparentemente, a única vítima estava a enviar mensagens qual a oficina explodiu. Mas como garantir que não foi, por exemplo, um curto-circuito?
A minha questão é esta: até pode ter sido o telemóvel (cuidado…), mas todos concordarão que não é uma causa muito comum. Mais uma razão para redobrar os cuidados. Mas não é o que sucede nesta notícia: o pai da vítima disse «Foi o telemóvel. Estava sempre a dizer ao meu filho que era perigoso, e proibido, utilizá-lo dentro do paiol» e o jornal transforma a convicção/impressão do pai numa notícia - sem o citar no título. Parece-me arriscado.