Textos do mês Junho 2006 ↓
É - para mim - evidente que estamos perante um caso de interesse público na reportagem da RTP sobre a violência nas Escolas. E quando há interesse público é óbvio que a recolha da informação não pode seguir as regras convencionadas (nomeadamente a obtenção por meios leais).
E é para mim evidente porque a reportagem só funcionou - por muito que custe a alguns, agora entretidos a pedir pareceres - porque os alunos não foram avisados previamente.
Mesmo que - por alguma razão absurda - a RTP viesse a ser censurada (e não vejo como, se alunos e docentes não foram identificados), continuaria a ser merecedora de aplausos exibição de uma reportagem tão corajosa.
(Não deveria o Ministério da Educação estar mais empenhado em tratar do problema ali denunciado do que em pedir pareceres?)
O assessor de imprensa da selecção nacional, o ex-jornalista Afonso de Melo, continua a sua campanha de jornalismo patriótico, não permitindo perguntas que ele (a mando de alguém?) desconsidera. Hoje um jornalista (penso que da Antena 1) quis perguntar a Simão Sabrosa sobre as folgas, mas o referido assessor nem deixou que o jogador respondesse.
A esta distância, e sem outras pretensões, sugiro a quem está em trabalho na Alemanha: se acham que é de perguntar não deixem de o fazer. Caso contrário, é esse ex-jornalista quem está a controlar a agenda!
(Fui convidado meia duzia de vezes para assessor de imprensa - é basicamente por coisas como esta que nunca aceitei e me repugna aceitar)
Eis um exemplo de como a auto-regulação, entre jornalistas, funciona: inexplicavelmente, a SIC contratou para trabalhar, como seu enviado especial a Timor, um antigo jornalista da Lusa RDP em Dili, que desempenha funções como representante do governo de Timor no estrangeiro (inexplicavalmente, também, esse antigo jornalista aceitou).
É evidente a incompatibilidade - na medida em que não se vê como é que o referido antigo jornalista consegue (nem parece que…) a isenção e a equidistância entre dois interesses: o da notícia, que pode ser desagradável para o governo de Timor, e o da pacificação da situação social e política, que pode pode ser incompatível com os valores-notícia.
Mais sobre o caso, aqui e aqui.
O 24 Horas tem vindo a noticiar as excursões dos jogadores da selecção nacional, em dia de folga, nas discotecas, até às tantas.
Muita gente condena o 24 Horas por isso. Mas acho que vale a pena reflectirmos um pouco:
- como interessado nos resultados da selecção, é-me indiferente que um jogador esteja até às seis da manhã numa discoteca? Não.
- como interessado nos resultados da selecção, preocupa-me que não tenha sido um ou dois jogadores, mas que isso possa ter acontecido com seis, sete ou dez jogadores? Sim.
- como interessado nos resultados da selecção, entendo que o rendimento de um jogador será o mesmo se estiver numa discoteca até à seis da manhã? Não.
Então tenho de aceitar que as madrugadas dos jogadores são notícia (não discuto se na primeira página ou em 500 caracteres), sobretudo nesta fase da preparação, e mesmo em folga.
PS - a situação agrava-se, de alguma forma, no caso de Costinha, que se sabe não jogar há meses e que admitiu não estar em forma.