Sou dos que acreditam que o jornalismo - ainda que entendido, provavelmente, de uma maneira mais larga - não só vai continuar a ser importante como, com a abundância de fontes através da internet, vai ser cada vez mais necessário.
Abundância de fontes não significa informação tratada nem hierarquizada. Significa que essas fontes, muitas vezes, tentarão não ser desagradáveis ou inconvenientes com hipotéticos clientes.
Vem isto a propósito dos títulos da newsletter da Marktest. Vejamos os dois primeiros exemplos do envio de hoje (e, como se percebe pela própria newsletter enviada via e-mail, o título será determinante para fazer a hiperligação para o texto completo):
-«Aí está a Família Superstar
Consulte a análise da MediaMonitor da estreia deste programa transmitido pela SIC». Foi uma boa estreia? Má» Não se sabe.
- «Festival Eurovisão de Dança
A RTP transmitiu o Festival Eurovisão de Dança, cuja análise de audiências foi feita pela MediaMonitor» E teve boa adesão por parte dos espectadores? Foi um fracasso? Não se sabe.
E não se sabe porque - parece-me - a Marktest evita dizê-lo declaradamente. Tem outra cultura e outra abordagem da informação (quer manter-se o mais neutral possível em relação aos três canais). Uma coisa é certa, nenhum jornal faria uma notícia com estes títulos (no primeiro caso, os resultados parecem ter sido bons para a SIC, com a liderança em determinado horário, e no segundo foi um verdadeiro sucesso para a RTP)
Quando Carlos Magno diz que tem «saudades do tempo em que a TSF tinha notícias [em primeira mão]» está a dizer muito mais do que parece. Do que parece ao próprio Carlos Magno?
- está a dizer, por um lado, que tem saudades do tempo em que, na rádio, apenas a TSF se preocupava em dar notícias; há, pelo menos, dez anos que deixou de ser assim;
- está a dizer, por outro, que tem saudades do tempo em que a rádio tinha apenas a concorrência dos jornais, em que a televisão não se preocupava com notícias (quem tem mais de 30 anos sabe que era assim, há uma década); do tempo em que não havia cabo nem canais interessados em noticiar a qualquer hora;
- mas está a dizer, sobretudo, que tem saudades do tempo em que o paradigma mediático estava muito bem conservadinho, do tempo em que não existia Internet; do tempo em que o Expresso só noticiava ao sábado e não à segunda, terça ou quarta (e quem diz o Expresso diz o Sol, com todas as suas respectivas e abundantes fontes); do tempo em que os diários saíam apenas um vez por dia, de manhã, e o resto do dia ficava livre - hoje, as edições on line noticiam a qualquer hora, além de haver jornais apenas on line.
- do tempo, em resumo, em que uma redacção com cem jornalistas geria as notícias para um determinado momento do dia e não para «qualquer momento»;
Eu também me lembro desse tempo, como o Carlos Magno. Mas não tenho saudades. Como profissional da rádio não me resigno, mas sei que o paradigma é outro. A rádio pode não noticiar em primeira-mão, mas pode acompanhar, desenvolver, estar em directo. Deixou é de poder competir com quem tem mais condições para noticiar. Nesse campeonato vai sempre perder. E o tempo não volta para trás…
PS - Boas entrevistas as de Helena Teixeira da Silva na última página do JN este Verão.
ACT a 5/09/07: O meu texto, como era de imaginar, suscitou as mais variadas críticas e análises. E rapidamente se passou para a própria TSF. Permitam-me re-citar-me: «A rádio pode não noticiar em primeira-mão, mas pode acompanhar, desenvolver, estar em directo. Deixou é de poder competir com quem tem mais condições para noticiar. Nesse campeonato vai sempre perder. E o tempo não volta para trás…». Se a TSF é hoje menos dinâmica, aguerrida, interveniente, devemos procurar as (principais) razões nesse contexto mediático. Há outras, claro. Mas menos determinantes (penso).