Textos do mês Outubro 2007 ↓
Vejo duas explicações para o facto de sistematicamente, na rádio ou na televisão, os jornalistas entrevistarem os seus interlocutores espanhóis em castelhano (não apenas os espanhóis, mas é o mais recorrente):
- uma questão de auto-estima, que tem fama de ser baixa entre os portugueses, mas que no que diz respeito à poliglotice é uma espécie de atributo genético (ou seja, nós somos bons, os espanhóis são fraquinhos);
- uma questão de (alegado) respeito pelo entrevistado (ele não nos percebe se falarmos português, por isso falamos na sua língua);
Seja uma seja outra a explicação, parece-me mal: o nosso compromisso é com o ouvinte, com os ouvintes, é para eles que fazemos as entrevistas, não para os entrevistados. Hoje de manhã João Adelino Faria entrevistou num castelhano impecável um jornalista da SER, a propósito da sentença em Madrid. É certo que, em rodapé a cada resposta, o João fazia uma brevíssima tradução (meia duzia de palavras) mas não me parece que haja meio termo quando se trata de estabelecer uma regra: ou os ouvintes portugueses percebem tudo e não é preciso tradução ou não percebem e a tradução, o mais completa possível, é necessária, incluindo das perguntas!
PS - como se lê no (bom) livro de estilo da RTP, o castelhano é uma língua estrangeira.
O Público de ontem, página 8, dá eco a três notícias do Sol do dia anterior (só num dos casos desenvolve): Sampaio quer referendo, Santana pagou indevidamente à Bragaparques e magistrados preocupados com possibilidade de secretas fazerem escutas.
Ou seja, foi mais uma edição em grande do Sol (depois das duas semanas com Catalina Pestana e o procurador na semana passada).
Acho que é da mais elementar justiça dizer isto: o Sol tem sido o jornal que mais notícias dá, o que mais marca a agenda. Isto significa vendas? Espero que sim, porque seria justo e o prémio mais importante que o jornalismo pode receber: a retribuição dos leitores ao esforço de uma redacção.
PS - já o disse aqui, deixei de comprar o Sol quando percebi que só tinha tempo, no fim de semana, para um semanário (além de dois ou três diários) e que à quinta ainda andava com o Sol; e o Expresso tem menos notícias mas é um jornal mais completo, mais diversificado, mais equilibrado (a segunda metade do Sol, das centrais até ao fim, é tempo perdido) e visualmente mais agradável.
Imagine-se o seguinte: para debater o próximo orçamento de Estado a RTP, a Sic Notícias ou a TSF convidavam (apenas) Octávio Teixeira, Bagão Félix e Patinha Antão. Seria aceitável?
Bem, por alguma razão nunca se lembraram de o fazer.
Pois o Semanário Económico fá-lo na edição de hoje: é aquilo a que chama «entrevista-debate» com estes três protagonistas, explicando na primeira das quatro páginas dedicadas ao assunto que apenas convidou especialistas da área da oposição.
As questões políticas não interessam para este contexto, apenas as jornalísticas. E sob esse prisma parece-me que os leitores do Semanário Económico ficaram com uma visão incompleta do problema (o mesmo aconteceria se os convidados fossem apenas da área socialista).
Irá o jornal convidar na próxima semana especialistas da área do governo? Mesmo que o faça, por uma questão de equidade, a formulação final parece-me infeliz: tratando-se de um debate faz sentido convocar as várias ideias disponíveis (ou pelo menos as mais relevantes) e permitir ao leitor, confrontando opiniões, esclarecer-se.
… estamos (quase) todos de acordo, mas como é que se faz? [posso estar enganado, mas daqui a dez anos continuaremos a estar quase todos de acordo sem que…]
Título:
«Estudo: apenas 6% dos pais portugueses brincam com os filhos»
Lead:
«Apenas 6% das crianças portuguesas brincam diariamente com os pais, de acordo com um estudo europeu que pretende avaliar os hábitos de brincadeira das crianças e pais na Europa»
PS - 6% dos pais portugueses não é o mesmo que 6% das crianças portuguesas? O meu amigo Pedro explica-me que «isso só seria correcto se o número de pais fosse idêntico ao dos filhos. Na escola do teu filho, p.exp., dizer 6% das crianças não é o mesmo que dizer 6% dos pais, pois não?… Concretizando: numa sala de 30 crianças/60 pais ( e serão 60??), aplicando a percentagem de 6%, isso dá 1,8% e 3,6% respectivamente. E não me parece intelectualmente honesto estar a considerar “pais” como um factor único, porque a criança é abordado como individual. Se fosse “pais” e “filhos” tudo bem, mas não é isso que lá está».
A Sábado entrevista Miguel Sousa Tavares (e faz capa), a Visão junta José Rodrigues dos Santos a Miguel Sousa Tavares (e faz capa com os dois), a Única faz o mesmo com Miguel Sousa Tavares e a NotíciasSábado entrevista José Rodrigues dos Santos - e não sei se me estou a esquecer de algum exemplo relevante na mesma semana (a Notícias Magazine fala com Rodrigo Guedes de Carvalho).
Por que é que me lembrei disto? Talvez porque estou mais atento à necessidade de procurar outra actualidade mas sobretudo porque li uma declaração notável do director do El País, no Público de domingo: «Queremos potenciar o nosso olhar próprio, seleccionar as notícias e termos a nossa própria agenda sobre Espanha e o mundo».
Exemplar (para quem é líder de mercado e altamente rentável)!
É absolutamente inexplicável - com recurso, pelo menos, ao bom senso - o impacto mediático das intervenções dominicais de Marcelo Rebelo de Sousa. Não há nada que se lhe compare em Portugal e provavelmente na Europa.
Ontem deitei-me a ouvir o que pensa Marcelo sobre a equipa de Santana Lopes e acordei com as opiniões de Marcelo sobre Pinto Monteiro.
Marcelo comunica bem e tem o sentido da notícia; Marcelo tem prestígio; Marcelo conhece bem, regra geral, as coisas de que fala.
Mas há certamente mais cem pessoas em Portugal com estas mesmas características.
Marcelo foi líder do PSD e é um putativo candidato - o que elimina muitos dos outros cem. Só que aquilo que é visto como um trunfo devia funcionar como «desconto».
Ainda assim, somando tudo e retirando o que houver para retirar, Marcelo não é assim tão importante. Não está tanto em causa o seu espaço semanal na televisão, mas sim o que se lhe segue.
Por muito que procure, não encontro nenhum argumento que justifique esta paranóia.
A nova grelha de programas da Antena 3 já tem mais de um mês e tenho estado a ganhar algum tempo para dar uma opinião.
Fiquei muito satisfeito quando li que a ideia era «Aprofundar o espaço dado aos jovens criadores de cinema, artes de palco e literatura é um dos objectivos da emissora, que pretende manter o “investimento incondicional nos portugueses» e tenho ouvido coisas interessantes: o programa de Rui Unas com jovens humoristas (às 23h de quinta), mais rubricas, mais diversidade musical (parece-me) e… Cláudia Semedo (sou fã!).
Não é a Antena 3 que eu gostaria de ouvir mas parece-me estar mais próxima. Não é uma nova Antena 3, mas a rádio está melhor.
Do que não gosto: da incapacidade em descobrir novas vozes quando se trata de espaços de opinião. Álvaro Costa é da casa, tem lógica, mas há certamente, neste país, modelos e pessoas que não tenham sido testadas pelo critério televisivo.
PS - e sobre a «Quinta dos Portugueses»?
Manuel António Pina na última Jornalismo & Jornalistas:
«Continua a haver muito corporativismo no jornalismo, não há uma condenação profissional da classe em relação aos jornalistas que agem mal. É preciso ter-se a coragem de romper com isto e denunciar a delinquência profissional»
O Sol antecipou na sexta à tarde a manchete do Expresso do dia seguinte e levou o Expresso a também colocar on line a notícia (mas não a encontrei; só a referência indirecta).
No dia seguinte o Público citava o Sol, o JN e o DN o Sol e o Expresso. A SIC Notícias, tanto quanto me apercebi, na sexta à noite, apenas refere o Expresso.