Textos do mês Novembro 2007 ↓
… quem o diz é Baptista Bastos no JdN de hoje.
O artigo não desenvolve a ideia, apenas que o jornalista «aponta o dedo à abertura de cursos de jornalismo ‘avulsos’ sem que o mercado tenha capacidade de absorver mais profissionais».
Ou seja, o jornalismo português está mais fraco porque existem muitos licenciados em jornalismo.
Curiosa maneira de ver as coisas: o meu fígado está pior porque há mais (marcas de) cervejas no mercado ou estou a gastar mais dinheiro em sapatos porque há muitos modelos novos!
Visto de outra maneira: o jornalismo não está pior por causa da concentração de meios, por causa da desregulação que se vive ou porque os empresários do sector apertam cada vez mais os custos da operação; não, está pior porque há muita gente que quer ser jornalista!
Não podia estar mais em desacordo - eu que também tirei a minha licenciatura ‘avulsa’ e dou aulas em cursos de jornalismo ‘avulsos’ há mais de 10 anos.
PS - Há demasiados cursos de jornalismo? Sim. Mas não é isso que contribui directamente para um jornalismo mais fraco; ele seria mais fraco, no contexto acima descrito, com ou sem excesso de licenciados. E teria, nesse último cenário, menos qualidade técnica.
O Público de sábado distribuiu uma revista mensal chamada «Perspectiva» (nº 6). É um revista estranha, no sentido em que se apresenta como uma revista de informação geral, sem ter (pelo que me apercebi) um público definido: há por exemplo vários textos sobre Angola, que só podem interessar a leitores de Angola.
Mas o que mais me impressionou na «Perspectiva» foi o seu modelo de negócio: sendo oferecida, apenas pode viver com a publicidade. Mas se o mercado publicitário está tão difícil para as publicações de maior prestígio, como consegue a «Perspectiva» viver?
A resposta está no seu interior:
- Há um artigo de duas páginas sobre a Universidade Independente de ANgola e duas páginas de publicidade da Universidade Independente de Angola (a publicitar as suas licenciaturas e as novas instalações);
- Há um artigo de página e meia sobre a Universidade Técnica de Lisboa e meia página de publicidade da UTL;
- Há um artigo de página e meia sobre a Cegoc (recursos humanos) e meia de publicidade da Cegoc;
- 12 páginas intituladas «dossier promocional» (as famosas publireportagens, antijornalísticas) sobre os mais variados assuntos (sendo que os casos de dois institutos públicos me parecem graves, pela demissão de criar valor noticioso: o INATEL e o Instituto António Sérgio têm páginas de «dossier promocional» e a seguir páginas de publicidade);
Não me atrevo, por esta única leitura e porque não conheço o funcionamento interno da revista, a contrariar o que se lê no Estatuto Editorial, que «PERSPECTIVA é um projecto de informação independente de qualquer poder instituído ou influência de natureza política, religiosa, económica, desportiva, étnica ou ideológica», mas ou é apenas coincidência ou fica a ideia de (alguma) submissão da abordagem jornalística a critérios publicitários.
Um/a leitor/a enviou estes comentários sobre esta notícia: «Inventor do LSD considerado o maior génio vivo»:
«Curioso como se faz uma manchete de um jornal, falando como se de um estudo cientifico e global se tratasse. E depois, lendo o artigo, quando se chega ao mais importante (que só aparece nas últimas linhas de texto) percebe-se que não é estudo nenhum, mas sim um inquérito feito a 4 mil pessoas no Reino Unido. Ora, inquéritos há muitos… existe um no site do jornal Marca, que num só dia, teve 69 mil participações…
Utiliza-se de ânimo leve o termo “estudo” para convencer leitores e para fazer manchetes que valem muito, muito pouco. GF»
Acho que há uma má interpretação por parte do leitor:
- em lado nenhum da notícia se dá a ideia de que se trata de um estudo científico ou global (mas reconheceço que inquérito era mais correcto do que estudo);
- a ficha técnica, embora no último parágrafo, fica bem clara: «A Synectics pediu, em Agosto,a quatro mil pessoas conhecidas no Reino Unido que nomeassem dez pessoas vivas que pudessem ser qualificadas geniais. Com as respostas, a empresa elaborou o
top 100 dos génios»;
- Porque a metodologia foi esta, a comparação com o exemplo on line da Marca faz pouco sentido;
- Concordo com a ideia que, por terem este âmbito e esta dimensão, os resultados do inquérito não justificavam ser o principal destaque da edição;
Ou seja, a notícia está bem feita, o destaque na primeira é que parece duvidoso.