Pagar para fazer notícias
As intenções podem ser as melhores (regra geral, são…), mas eu desconfio sempre quando leio que alguém ou alguma entidade paga para que os jornalistas façam… jornalismo… sobre elas!
As intenções podem ser as melhores (regra geral, são…), mas eu desconfio sempre quando leio que alguém ou alguma entidade paga para que os jornalistas façam… jornalismo… sobre elas!
Muitas vezes tenho tentado explicar aqui algumas opções jornalísticas que, a muitos fora do jornalismo, são difíceis de compreender.
Mas há situações que são de tal maneira incompreensíveis que não têm mesmo explicação - muito menos para os consumidores de comunicação social.
Uma suspeita: porque esta foi anunciada e outras anteriores não?
(ou a foto certa no lugar errado?)
Ontem os jornais davam conta de uma situação de marcha em sentido inverso na Via do Infante no Algarve - a partir de uma foto que mostrava um carro virado no sentido contrário (nesta notícia, por exemplo, fica claro que tudo se baseia na foto).
Hoje ficou a saber-se que o carro não circulava em sentido contrário, mas que tinha havido um despiste. E vários jornais corrigem a situação.
É certo que o jornalista que tirou a foto garante que viu o carro em movimento, mas ficam-me, ainda assim, algumas dúvidas (nomeadamente quanto à forma como foi tirada a foto); é que um carro despistado e um carro a circular em sentido contrário são coisas diferentes (parece-me…).
ACTualizo a 28/02/08 - A coisa é pior do que se pensava: «A Euroscut, que fez chegar ao JN fotografias comprovativas da sua versão, entre as quais a que publicamos, afirma ter sido “a primeira a chegar ao local, ainda antes do fotógrafo da Lusa, que chegou minutos depois”»
Ontem o Jornal de Negócios escrevia isto: «Américo Amorim acabou por vender a empresa de veludo ao grupo chinês Aoyang, que desta forma poderá entrar com maior força comercial na Europa, soube o Jornal de Negócios, que contactou o grupo Amorim e depois de várias insistências foi encaminhado para o responsável máximo da Gierlings Velpor, Constantino Silva, que apenas respondeu: “Não temos qualquer comentário a fazer”.»
Hoje, no mesmo jornal, lê-se o seguinte: «Américo Amorim está a negociar com os chineses do grupo Aoyang uma “joint venture” no negócio do veludo e garante que a Gierlings Velpor não está à venda».
O que é que se passou? A jornalista Luísa Bessa explica: «O Jornal de Negócios contactou por diversas vezes, sem sucesso, os responsáveis da Amorim Desenvolvimento antes da publicação da noticia. A única resposta que obteve foi do director-geral da Gierlings Velpor, Constantino Silva, que reagiu desta forma: “Não tenho qualquer comentário a fazer”. Só depois da publicação da notícia do JdN é que Américo Amorim acabou por esclarecer o negócio, escusando-se a revelar pormenores».
PS - Um assessor de imprensa no Grupo Amorim ajudaria provavelmente a evitar este erro do jornal e este equívoco empresarial (e lembrei-me, quando está na moda diabolizar, genericamente, a assessoria de imprensa).
… que têm coragem para dizer coisas como esta: «O Grupo Espírito Santo é um poderoso e influente grupo económico português que já em tempos retaliou contra um semanário retirando-lhe toda a publicidade por discordância com o seu conteúdo editorial. Não querendo embarcar em teorias da conspiração, o provedor confessa que este episódio aflora inevitavelmente à mente perante o caso agora relatado. O PÚBLICO teria pois todo o interesse em que o mistério fosse cabalmente esclarecido».
PS - quanto à notícia, e como não há duas sem três, quer-me parecer que a ligação indicada na página do provedor está errada ( http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1317047); de qualquer forma, aqui encontram-na - espero.
Outro dia ouvi uma notícia na Antena 1 muito interessante (a ASAE multou o Intermarché porque os preços da Cocacola eram demasiado baratos, ‘dumping’ portanto); nos dias seguintes procurei saber mais sobre essa notícia (ou, até, lê-la), mas a verdade é que não está em nenhum lado.
Pode ser uma excepção, mas mostra que a nossa confiança na net ainda não pode ser total; afinal não está tudo no Google!!!
Ouvi e li sobre um documento da SEDES em que se fala na «combinação de alguma comunicação social sensacionalista com uma Justiça ineficaz».
Tanto quanto percebi, o documento pretende fazer um diagnóstico da realidade portuguesa e se assim é, acho que erraram o alvo. Não digo que não há algum sensacionalismo na comunicação social portuguesa, e que na questão da justiça não houve erros, mas acho que se pode considerar um problema. Pelo contrário, globalmente até temos uma comunicação social equilibrada (bem comportada?).
Digo que a SEDES - e não tive oportunidade de ler o documento - errou o alvo, porque passa ao lado de problemas mais graves, esses sim capazes de pôr em causa a liberdade de imprensa e, por extensão (e no limite), a democracia. Aquilo que me parece ser a crescente auto-censura nas redacções (sobretudo nos meios ‘controlados’ pelo Estado), a incapacidade, cada vez mais visível, da comunicação social em escrutinar os poderes, sobretudo o político, ou a forma intimidatória como este mesmo poder político se relaciona com a comunicação social são sinais bem mais relevantes do que a tal «comunicação social sensacionalista»! É pena.
Há dias um camarada da redacção do Público enviou-me um email dizendo mais ou menos isto: o que é que se passa com a rádio que há cada vez mais sons estrangeiros sem dobragem (dando como exemplo a TSF)?
Respondi-lhe mais ou menos isto: não sei, mas é verdade.
Mas até sei. Sei - e já o disse neste blogue uma dezena de vezes - que por desleixo e/ou por presunção, os jornalistas da rádio em Portugal (sim, incluindo os da TSF) dobram cada vez menos os sons estrangeiros que passam. A explicação é quase sempre a mesma - o ouvinte percebe! E isto tanto serve para sons em castelhano como para sons noutras linguas, desde que curtos. Sobre o castelhano, a minha opinião é clara: é estrangeiro e deve ser dobrado. Sobre os sons curtos: um som curto é um som com menos de cinco segundos (sendo tecnicamente inviável essa dobragem). Há quem opte por fazer a tradução antes e deixar depois correr o som, esquecendo uma regra básica da emissão radiofónica: a audição é linear, não volta atrás. Por isso, quem está a ouvir já não terá presente a eventual tradução feita antes (o fenómeno está estudado, e todos nós somos testemunhas disso). Outra coisa: os sons muito curtos, opção para a não-tradução, negam o jornalismo, porque não têm qualquer utilidade informativa (só ilustram…).
Infelizmente não estou optimista: acho que a situação não vai melhorar e até pode piorar, como se tem assistido, consequência destes tempos em que o jornalista também faz a parte técnica. E como a dobragem implica mais recursos/esforço técnico…
Há quem pense que os ouvintes, neste caso, são estúpidos, que ’comem’ tudo o que lhes damos; eu acho o contrário.
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… ou a entrevista de ontem a José Sócrates não ficará no currículo de Ricardo Costa e de Nicolau Santos?
A propósito da viagem de Bush a África, um dos operadores públicos de rádio dos EUA (NPR) falou no «continente negro». Pouco depois veio a correcção: «é completamente inadequado e ofensivo, e pedimos desculpa por um termo tão antiquado e pejorativo ter ido para o ar» («This was totally inappropriate and offensive, and we apologize for allowing such an antiquated and pejorative term to air»). Continente negro?
… feito por quem não é jornalista, sugiro que vejam à segunda-feira, na RTPN, «A economia do mês».
1) Joaquim Vieira falou sobre o caso na crónica de ontem. O texto do Provedor dos Leitores não tem - ainda bem, digo eu - surpresas («analisando ambas as notícias, verifica-se que estão apoiadas em fontes e documentos devidamente referenciados e que Sócrates é ouvido previamente, pelo que nada de negativo há a referir quanto à sua elaboração»), mas permitam-me destacar esta parte: «O próprio Sócrates tem sido muito cauteloso nas palavras que usa para “desmentir” o PÚBLICO (em particular quanto à primeira notícia)». É para mim claro que se o primeiro-ministro pudesse desmentir de outra forma o trabalho tê-lo-ia feito (com factos, com documentos, com disponibilidade, como mandam as técnicas de comunicação de crise).
2) Desafiado por um leitor, dirigi no dia 8 de Fevereiro uma mensagem ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas. Nessa mensagem perguntei se o CD pensava debruçar-se sobre a forma como foram obtidas algumas informações relativas a este caso em concreto (para mim justificada, ainda que com o acidente de percurso de utilização do nome de outro jornalista) ou se aceitaria uma sugestão para o fazer, no sentido de se conseguir uma reflexão mais alargada (e mesmo, quem sabe, alguma jurisprudência). Passaram 10 dias e não obtive resposta. Que também pode ser uma resposta… (nem por acaso, o Conselho Deontológico aprovou, em 24 de Janeiro, o seu Regulamento Interno, estabelecendo regras de funcionamento e definindo procedimentos para a apresentação de queixas e pedidos de pareceres). Aguardo
Zapatero, no final de uma entrevista a Ignaki Gabilondo/Cuatro, fez algumas rápidas observações, certo de que já não estava no ar. Essas observações estão no YouTube e, tanto quanto se percebe, «desencadearam um coro de críticas sobre Zapatero, por representarem uma aparente contradição em relação a afirmações suas no passado. Zapatero criticou por mais de uma vez o PP por criar artificialmente focos de tensão política na sociedade espanhola».
Eis um exemplo de uma informação obtida por meios desleais e sem verdadeira relevância política que a justificasse (ou seja, sem o tal interesse público) - ao contrário do caso do seu amigo José Sócrates. É, até, duvidoso se a comunicação social deve fazer uso dessas imagens; não é por esatarem no YouTube que passam a ser legitimadas. Mais complicado é gerir o caudal noticioso que se segue, ignorando a origem. De qualquer forma, talvez fizesse sentido alguma nota de contexto, a acompanhar o vídeo, sobre a forma como a informação foi obtida.
A partir de hoje o Blogouve-se deixa de estar alojado no blogger e passa para um domínio próprio que tem o endereço blogouve-se.com.
É o terceiro alojamento deste blogue, depois de ter começado no brasileiro webloguer em Junho de 2003. Em Dezembro de 2004 passei para o actual blogger e agora dou um passo em frente, ao aceitar o convite de Paulo Querido para integrar a rede TubarãoEsquilo.
Devo dizer que o convite é antigo, mas a mudança provoca instabilidade e é perturbadora. E por isso fui adiando. Acabou por ser uma brincadeira, no mês passado, a precipitar a mudança.
Para os leitores, além da mudança de endereço e de alguma turbulência inicial, tudo continuará a ser como sempre foi: o Blogouve-se é um espaço em que partilho as minhas reflexões sobre o jornalismo e os jornalistas com os leitores. Até já?
«1) O trabalho de José António Cerejo no ‘Público’, sobre as assinaturas de Sócrates a projectos que não eram seus, mas de outros engenheiros, pareceu-me sério, seguro e bem documentado. Não conheço jornal independente no mundo que não o publicasse. (…) 4) A reacção de Sócrates é desproporcionada. Na verdade, o primeiro-ministro não discute os factos que a notícia em causa lhe assaca. Apenas diz que os projectos são seus, mas não explica por que motivo fez projectos tão maus na Guarda, nem abre os processos a consulta para se avaliar se seriam ou não da sua autoria. Apenas discute as motivações com que a notícia foi feita. Ao reagir assim, ele não desconhece a pressão brutal que coloca sobre os jornais e sabe que qualquer notícia, comentário ou crítica menos favorável são vistas do ponto de vista do combate político e não como devem ser escrutinadas: através do critério da veracidade. Independentemente de a notícia ser verdadeira, ataca-se de forma violenta os autores da mesma, na reedição cansativa da morte do mensageiro.» (Henrique Monteiro, director do Expresso)