Textos do mês Março 2008 ↓
Lê-se esta informação que acaba de chegar às redacções:
«O Presidente da Comissão Política do PSD, Dr. Luís Filipe Menezes, convida o vosso prestigiado órgão de Comunicação Social para uma Conferência de Imprensa a realizar AMANHÃ, terça-feira, dia 1 de Abril, pelas 11 horas, na sede da Distrital do PSD/Porto, sita na rua Guerra Junqueiro para: RTP: GIGANTESCA MÁQUINA DE MANIPULAÇÃO»
e fica-se com a ideia de que é o presidente do PSD que vai falar sobre o assunto; porque o presidente do PSD está no Alentejo, de acordo com o programa oficial, liga-se para o PSD e pergunta-se; afinal não, é outra pessoa que não o presidente do PSD que vai falar. O seu nome é referido na informação? Não.
PS - amanhã escreverei sobre o relatório da ERC
Sendo o fotojornalismo tão mal tratado em Portugal (a maior parte das vezes serve para compensar/atenuar a mancha de texto), ver este trabalho da agência Reuters reconcilia-nos com o fotojornalismo (basicamente porque mostra que uma foto que não seja uma ilustração não depende tanto do acontecimento mas da oportunidade, da sensibilidade e do esforço do fotojornalista).
Posso dizer, obrigatório?
Nas Caldas da Raínha hoje é dia 1 de Abril (ou como a notícia que, imagino, se preparavam para divulgar no dia 1 de Abril já está on line…).
«O repórter do Público [Paulo Moura] abordou os advogados de Maria das Dores pedindo uma entrevista com a sua cliente. (…) Fernando Carvalhal [um dos advogados] acrescentou: «Claro que temos de falar de valores».
«Valores, que valores?», perguntou o repórter. Carvalhal precisou: «O preço da notícia». Embaraçado por não ter conseguido vender a entrevista, carvalhal esclareceu: «Os nossos honorários não são pagos com isto». (no Público de hoje, pág 13).
Há dois anos a RTP exibiu uma «reportagem sobre violência escolar, da autoria de Mafalda Gameiro, [que] mostrava agressões entre alunos e aos professores nas salas de aula». Lembram-se? Há dois o que fez o Ministério da Educação? Fez o que pôde para desacreditar (intimidar) o mensageiro, em vez de atacar, enfrentar e intervir no problema.
Dois anos depois nada se fez e o problema está outra vez na agenda; desta vez, apesar das tentativas, é mais dificil desacreditar o mensageiro - o TouTube é de todos e de ninguém…
O problema, esse, continua.
A RTP poderia/deveria repetir a reportagem! Ontem, como ainda mais hoje, o interesse é óbvio.
PS - «O Ministério da Educação (ME) pediu pareceres à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), ao Conselho Deontológico e às comissões nacionais de protecção de dados e de protecção de crianças e jovens por suspeita de irregularidades na realização da reportagem que a RTP emitiu no passado dia 30. (…) A ERC vai analisar a questão ho-je, na reunião semanal do conselho regulador. Já o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas agendou para amanhã uma reunião sobre o caso.»; desculpem a ignorância, mas isto deu alguma coisa? ACT a 28/03: da recomendação da ERC: «Considera que o recurso a câmara oculta na reportagem “Quando a violência vai à Escola” se mostrou desadequado e abusivo, violando direitos fundamentais dos alunos captados por essas câmaras e induzindo, além disso, a comportamentos discriminatórios;«3. Recomenda à RTP o cumprimento dos deveres que lhe incumbem em matéria de rigor informativo, gravemente postos em causa na reportagem “Quando a violência vai à Escola”, pela apresentação de uma “verdade” sobre a violência nas escolas, sem contextualização nem direito a contraditório;»
A própósito deste caso, mais alguns pormenores:
«Paulo Azevedo quis inovar . E as primeiras contas que apresentou como presidente da SONAE SGPS foram tão inovadoras, tão inovadoras, que acabaram por dar azo a uma chuva de protestos de jornalistas. (…) A comunicação social em geral teria acesso à informação apenas através de um endereço na Internet criado para o efeito, onde havia depoimentos da comissão executiva e acesso a uma entrevista ao presidente e aos três administradores conduzida pelo subdirector de um jornal económico. (…) foram estas as declarações em ‘on’ a que os jornalistas tiveram acesso. ‘Em Off’ suspeita que foi o ex-director do ‘Diário Económico’, Martim Avillez Figueiredo, agora a trabalhar com Paulo Azevedo, que sugeriu tão original forma de comunicação. Que, espera-se, venha a ser corrigida no futuro». (’Em off’, Expresso, 21/3/08, pág E4)
Para resumir: eis um caso eticamente duvidoso.
Sejamos claros: como é que destilaria Bushmills (Diageo) consegue mais de meia página de jornalismo no suplemento de economia do Expresso?
Resposta: convidando o Expresso a ir até ao Norte da Irlanda. E neste sábado lá está uma reportagem feita na destilaria da Bushmills (a qualidade do texto não está em causa, que fique claro).
A pergunta que me parece central neste caso é esta: uma reportagem na destilaria da Bushmills estaria na lista das próximas 200 reportagens a fazer pela redacção do Expresso? Então foi o convite que mudou tudo.
Ou seja, os clássicos critérios editoriais podem ser facilmente alterados… com um convite para uma viagem (a minha avaliação seria diferente se em vez do suplemento de economia do Expresso se tratasse de uma revista/suplemento de lazeres e prazeres).
PS - no caso em apreço há ainda um pormenor perverso: a reportagem na Irlanda do Norte abre a página; em baixo está uma das duas notícias mais importantes dessa edição, a do aumento de capital do BPN (com chamada ao caderno principal).
A minha costela verde e branca puxa-me para esse contentamento desconte que é a hipótese de ganhar a taça da cerveja.
Quero ver o jogo na televisão, mas a que horas é o jogo?
Procuro e reprocuro nos dois sites que habitualmente consulto, Record e Maisfutebol, e não encontro a informação (certamente por inabilidade minha…). Finalmente, e antes de ir à página da RTP, encontro em A Bola a informação. No Maisfutebol há mesmo uma entrada que diz «Carlsberg Cup: final para a história AO VIVO»; hora é que não há.
A explicação é simples; distracção. Mas a montante está o eterno divórcio entre a agenda jornalística e a agenda (útil) dos leitores.
Se o reino das relações públicas vive num regime de completa desregulação, realidade desproporcionada, relativamente à importância social que desempenha, os assessores de imprensa políticos são os campeões da impunidade. Não que não haja excepções (de alguma forma, distinguem-se pela sua antiguidade), mas por um conjunto de condições, vive-se na selva completa.
Dois exemplos das últimas horas, que me contaram dois camaradas da TSF:
- no Ministério da Administração Interna há uma nova e peculiar regra; os jornalistas, quando encontram o ministro, só podem fazer quatro perguntas. Porquê quatro? Os seus assessores (ex-futuros jornalistas, como quase sempre) dirão que podiam ter sido três… A questão, contudo, é mais grave: no limite, o ministro tem o direito de recusar todas as perguntas, mas os jornalistas devem ter o direito de procurar todas as respostas!
- há vários dias que na redacção perseguiam informações sobre o futuro da Docapesca. Depois de vários contactos, em que era pedido que se ligasse depois com a putativa promessa de notícia, anteontem mais um, com repetida promessa de novidades. Ontem, porém, o assessor do Ministério da Agricultura avisou que a informação fora desviada para um jornal económico. A TSF podia dar uma linha, mas à meia-noite. Esta manhã o mesmo assessor, contactado por outro jornalista, já tem um discurso diferente, lamentando que a TSF não tenha querido dar a notícia, tendo até recusado entrevistar o ministro da Agricultura, ontem (como se quem procurou a notícia durante tanto tempo fosse, na hora, recusar o próprio protagonista da notícia…);
Alertado por uma eleitora, fui visitar uma página chamada Sonae Circle, criada para a divulgação dos resultados da Sonae SGPS de 2007. A dado passo há uma entrevista do sub-director do Diário Económico aos quatro presidentes.
A Joana pergunta se «a associação do “Diário Económico” a este projecto é legítima? Melhor: pode (ou deve) um jornal líder do segmento de economia associar-se a um projecto de comunicação deste género, desenvolvido por um dos maiores grupos económicos portugueses?». A nossa leitora pergunta ainda «se não são também estes pequenos (?) pormenores que contribuem para a promiscuidade que tanto se critica na forma de fazer jornalismo no nosso país. Sobretudo quando tudo isto ocorre dois meses depois da transição do ex-director do jornal em questão para a empresa em questão?».
Não é uma resposta fácil, Joana, na medida em que por um lado temos uma entrevista feita por um jornalista, com uma abordagem jornalística (poderia ser mais ‘combativa’? Mas não é por aí que deixa de ser uma peça interessante e mesmo única). Por outro, uma colagem óbvia a uma empresa. Quando e se o Diário Económico fizer a mesma coisa com outras empresas, a estranheza será menor. Mas devo dizer que me parece infeliz terem começado com a Sonae. Infeliz em quê? Não tanto no ser, mas mais no parecer.
Pelas mais variadas razões, não tenho ouvido o Rádio Clube.
Hoje liguei no preciso momento em que se ouvia um preso português no Perú, condenado por tráfico de droga, dizer que estava arrependido, que o fez por dinheiro e a queixar-se de que não tem tido o apoio das autoridades portuguesas (apoio para quê, pergunto eu?).
Ouvi e desliguei de imediato.
A tentação tabloidista - os ‘casos humanos’, que se esgotam em si próprios, sem qualquer relevância social ou colectiva - parece estar em todo o lado, mas eu, que não gosto, não ouço.
ACT a 20/03: Como seria de esperar, a notícia está no 24 Horas... (relativamente à tentação tabloidista, mais umas linhas: não aconteceu, com este caso, nada de especial - o ‘correio’ foi apanhado, está detido há três dias e será condenado. Como diz o próprio texto, num lead ‘assassino’ da própria ideia de notícia, «Um cidadão português de 21 anos, preso há 3 dias em Lima, no Peru, é apenas um dos 17 portugueses detidos naquele país pela mesma razão».)
Eu sei que não estamos em tempo de recusar publicidade, mas devo dizer que encontrei na Notícias Magazine uma publicidade no mínimo estranha: «Bebidas com gás podem fazer parte de uma dieta saudável».
Para os mais desatentos, lembro que sempre se disse o contrário, e a informação do Ministério da Educação confirma-o: «Evite os sumos e bebidas refrigerantes (com gás)».
Em que ficamos? «As bebidas com gás são uma boa opção para regulação de peso e hidratação»? Não é o oposto do que se ouve todos os dias e do que se diz às crianças, para combater a obesidade?
As empresas jornalísticas devem exercer uma tutela editorial sobre o que se diz na publicidade?
PS - a publicidade não tem identificação, mas, das quatro fotos, duas são de copos com aquilo que parece ser cola. Por coincidência, ou talvez não, o texto da publicidade coincide com este da página da Coca-Cola.
O caderno de economia do Expresso - do qual sou, mais do que leitor, fã - tem esta semana três reportagens feitas no estrangeiro: Nova Iorque, Genebra (?) e Reiquejavique. As três realizadas a convite de empresas/organizações.
Isto é muito mau porque revela como, pelo menos ao nível das deslocações, a Economia do Expresso está dependente das agendas externas e não da sua, para além de poder significar um desinvestimento.
Como é que os leitores sabem disto? Porque o jornal o diz, que viajou a convite das empresas. E essa transparência é muito boa.
Hoje, ao ler esta notícia, lembrei-me de algo que ouvi varias vezes na terça (de manhã e de tarde), em diversos jornais desportivos radiofónicos: O Inter recebe o Liverpool, Figo vai ser titular, (os outros dois portugueses) Pelé e Maniche ficam no banco.
Este exemplo remete-nos para um tema que já aqui tratei mais do que uma vez: a displicência com que a generalidade dos jornalistas antecipa a constituição das equipas de futebol, num exercício de zandinguismo jornalístico (raras são as vezes em que as previsões coincidem, até porque - é sabido - no mesmo dia coexistem várias vezes diversas previsões/equipas).
Voltando ao caso em concreto. Das duas uma - ou há alguma fonte credível que garante que Figo vai jogar (com tanta antecedência?) e deve ser citada, ou então é a brincar.
Os jornalistas gostam de se afirmar como rigorosos. Regra geral, é verdade. Excepto quando se fala de futebol e se fazem previsões quanto ao onze que vai alinhar. Aí é a brincar…