Textos do mês Abril 2008 ↓
O DN publica hoje uma página de publicidade que tem este título: «’Crime na OPA chinesa do Benfica’ - Desmentido».
No fundo trata-se de uma carta assinada por Vasco Pereira Coutinho contra, parece, o Diário Económico e dirigida - parece - ao director do Diário Económico («é inadmissivel que pessoas que publicam tamanhas falsidades a coberto de fontes anónimas, comos os jornalistas do Diário Económico na altura fizeram, saiam de tudo isto incólumes, só porque são jornalistas»). No Diário de Notícias. Cujos leitores não terão percebido nada e, se calhar, até pensaram que o DN teria alguma coisa a ver.
É contra este tipo de comportamento que tenho vindo a manifestar-me, o da falta de respeitio pelos leitores. ‘Eles comem o que lhes dermos’. Até quando?
PS - a carta/desmentido de Vasco Pereira Coutinho não sai no Diário Económico de hoje. Mas, pelos vistos, sai em A Bola de hoje. Contra o Correio da Manhã…
Espanha tem o El País e o El País é um dos melhores jornais do mundo.
Mas se em Espanha é possível que aconteçam coisas como esta num jornal como o El Mundo («Jornal espanhol cita polícias de ficção como sendo verdadeiros») , então isso faz-nos pensar que o jornalismo português estará blindado - até ver? - ao lixo (veja-se, por exemplo o tipo de justificações do jornalista).
(Se quiserem desenvolver o assunto e, mesmo, ler o texto de Anibal Malvar na íntegra, podem fazê-lo a partir do blogue de Joana Morais; através deste surpreendente blogue, e da atenção da autora, descobri um blogue de um cronista do El Mundo que se dedica a escrever sobre o El Mundo, numa perspectiva - como tantas vezes aqui se procura - de metamédia)
1)
«Vou explicar-lhe uma coisa: eu chego ao pé da direcção do Correio da Manhã, ou do Diário Económico, e peço: “Importas-te de pôr aí o Patinha Antão a escrever uma peça, ou o Ângelo Correia?” A seguir, quem trabalha com o PS faz o mesmo: “Põe o Jorge Coelho, o António Vitorino a escrever um artigo.” O que é que estes colunistas fazem? A partir do momento em que têm o seu palco, começam a andar à volta, a andar à volta, e esquecem-se de defender a estratégia do dr. Menezes, ou seja de quem for. Quando se apanham com aquele glamour… Ficam em roda-livre.»
2)
«Por exemplo, um cliente meu diz: “Ah, gostava tanto de conhecer o presidente do Benfica!” Eu telefono: “Ó Filipe, podes marcar um almoço comigo para a semana?” Ele diz: “Sim. Dia 14.” E eu: “Posso levar um amigo meu?” Ele: “Podes.” E pronto. O tipo pode querer fazer um negócio qualquer, patrocinar uma modalidade, ou coisa do género. E faz. Há tanto conflito de interesses numa agência de comunicação como numa firma de advogados ou numa consultora. É uma questão de seriedade»
Como jornalista, o que mais quero é que todos os órgãos de comunicação social estejam pujantes e a crescer. Daí que, mesmo não sabendo se isto é a bonança, estas sejam boas notícias.
Como observador, faço um destaque para o Diário de Notícias. Embora ninguém goste pôr as coisas desta forma, a verdade é que o esforço liderado por João Marcelino poderia ser o último, depois de alguns erros e equívocos.
E destaco o DN porque é forçoso reconhecer que o jornal tem feito um esforço para mudar as coisas, melhorando o produto que é oferecido todos os dias, investindo no jornalismo - não gosto de tudo o que lá se lê, como é óbvio.
Sinceramente fico muito satisfeito com os resultados do DN; mostram que o jornalismo ainda é o melhor investimento de um jornal.
José Nuno Martins despede-se este sábado da função de provedor dos ouvintes da RDP.
Não faço um balanço positivo do desempenho - e escrevi-o algumas vezes - embora admita as dificuldades de iniciar uma função a partir do zero. A sua saída ao fim de um ano é normal (e natural, porque ele próprio se tinha indisponibilizado), portanto.
Talvez o problema maior de José Nuno Martins tenha sido de perspectiva - de perceber quem representava (mais de como representava). Não basta dizer que é ‘dos ouvintes’. Por um lado é importante perceber que os ouvintes não têm sempre razão; por outro, é preciso ter em conta o seu interesse colectivo. Na imprensa temos tido quem consiga uma boa fusão destes pressupostos (e na RTP Paquete de Oliveira também terá desempenhado a função satisfatoriamente, por isso, também, continua).
Francisco José Oliveira poderia ter sido o seu substituto. Não foi. Apenas um comentário: Não vejo como é que «um nome “com uma ligação recente e duradoura” a uma agência de comunicação» não pode desempenhar a função de uma forma positiva (a menos que fosse conciliar as duas coisas). (nota: trabalhei com Francisco José Oliveira na Rádio Nova, entre Março de 1989 e Junho de 2001).
de um leitor deste blogue:
«Caso da ‘notícia’ do Expresso sobre Pinto da Costa acabou em admoestação verbal aos jornalistas. Aqui.
Para que fique claro, nada tenho contra os jornalistas em causa. Interessa-me o generalizar do caso: como/a quem respondem os jornalistas pelos - naturais, mas não desejáveis, é certo - erros ? (sim, para além da resposta esbatida … “perante o público”)»
Uma nota minha: as três informações (a primeira e a segunda notícia e o comunicado da direcção do Expresso) não estão online. Desapareceram? Estou a ver mal? Eu não acho bem.
… João Jardim na luta pela liderança do PSD.
A SIC já se queixou a Manuel Ferreira Leite e fala em concorrência desleal…
«Crianças que ninguém quer adoptar» é um dos títulos de primeira página do último Expresso. A ilustrar a chamada está a foto de uma criança, um bebé.
Se quisermos ver numa perspectiva legalista, como essa criança não está identificada, poder-se-á pensar que não há problema, nomeadamente ao nível de consequências futuras dessa criança.
Mas, como em muitas outras questões, a perspectiva deve ser sobretudo ética, mais até do que deontológica. É anti-ético usar a imagem de uma criança, de um bebé, para ilustrar um texto com esta conotação. Algum jornalista do Expresso aceitaria ceder a foto de um seu filho para isto?
Curiosamente, ou talvez não, no interior, em duas páginas, o Expresso não mostra a cara de nenhuma criança. A preocupação não chegou à primeira página, pelos vistos.
PS - tenho uma especial sensibilidade para estas questões da adopção; espero que isso seja sobretudo uma forma de me ajudar a ver melhor o problema.
A TSF passou hoje uma peça que divulga os próximos concertos de Nick Cave em Portugal e em que aparecem declarações do cantor, músico e compositor. Mas em que nada é dito sobre a origem dessas declarações.
Estou convencido que uma das coisas que os jornalistas terão mudar rapidamente é percepção da importância que devem dar aos seus ‘utilizadores’ (outra, por exemplo, é a banalização desta palavra, em detrimento do simples ouvinte, leitor ou telespectador…).
Actualmente, e ao longo de décadas foi assim, vigora a máxima: ‘eles comem o que lhes dermos’ (e nesse sentido o destinatário é subalternizado, desconsiderado, remetido a um papel absolutamente passivo). Com a net, nada ficará como dantes. Os consumidores percebem que têm mais direitos do que apenas ligar ou desligar, a interactividade será cada vez mais uma realidade, os jornalistas sentir-se-ão ‘obrigados’ a prestar contas - até ao limite dos próprios critérios.
Voltando à peça que suscitou este postal: se Cave tivesse falado à TSF seria natural que o trabalho o referisse; se fosse a outro órgão de comunicação social, ainda mais; mas aqueles sons em concreto apareceram de onde?
Os ouvintes (os utilizadores, os consumidores) não são estúpidos. E se nós só existimos por causa deles, respeitá-los é dar-lhes (o máximo d) a informação que lhes pode ser útil para a compreensão total do nosso trabalho.
«Investidor do Boavista detido»
PS - Investidor? Não seria melhor pseudo-investidor? anunciado investidor? prometido investidor? Investidor é aquele que investe… Ou seja, é preciso «não acreditar em tudo o que nos dizem»
A entrevista de Aguiar Branco à Visão levou à demissão de Luis Filipe Menezes (foi mais a gota de água, mas não se lhe pode nem deve retirar o mérito).
O original neste caso é que a entrevista, publicada ontem, foi conhecida um dia antes, às seis da tarde na Antena 1.
E original porque estas entrevistas, quando são antecipadas, têm embargo, por exemplo até à meia noite. Ou há um novo paradigma (por força da net, embora tanto quanto me apercebi ela não estivesse nessa altura online?) ou alguma coisa correu mal.
Uma coisa parece-me certa: a antecipação deu mais protagonismo à entrevista. E forçou o desfecho?
PS - é um pormenor, mas esta peça do DN poderia fazer uma referência, nem que fosse na última linha, à entrevista à Visão
Este texto do Correio da Manhã é no mínimo curioso:
- o jornalista explica, entre outras coisas, o que se passou ontem com a informação falsa transmitida pelo Expresso (e revela por exemplo que o boato chegou a várias redacções mas que só o Expresso o ‘agarrou’);
- o jornalista descreve a informação como um boato mas garante/afirma que o Benfica nada teve a ver com a sua difusão. Ora um boato/rumor, por definição, não tem origem definida, por isso é que é um boato; além do mais - não duvidando que seja verdade - como é que se pode garantir uma coisa destas: «apesar de o Benfica nada ter tido a ver com a difusão do boato nem com a falsa informação que fizeram chegar ao CM»?
O Expresso online apresenta «em exclusivo» a seguinte notícia: «Pinto da Costa deu entrada hoje, cerca das 13 horas, no serviço de urgências do Hospital da Luz. Segundo apurou o Expresso, o presidente do FC Porto ter-se-à sentido mal e foi levado àquela unidade hospitalar, com suspeita de estar a sofrer um ataque cardíaco, tendo posteriormente saído do hospital. Contactada pelo Expresso, a administração do hospital não confirma a notícia.»
O FC Porto já desmentiu a notícia (mas nada diz na sua página, até este momento) e há pouco, depois das 16h, chegou às redacções um comunicado assinado pelo relações públicas Rui Terra dizendo o seguinte: «Informam-se todos os órgãos de comunicação que a noticia que dá conta de um principio de enfarte ao Sr. Jorge Nuno Pinto da Costa, é falsa e absolutamente infundada, o Sr. Pinto da Costa está bem, o casal dirige-se para Setúbal para o jogo de hoje á noite. Partiram do Porto por volta das 12H20 e acabaram de chegar a Setúbal eram 16H10, uma vez mais agradecemos a Vossa atenção e colaboração no que respeita a desmentir tão disparatada noticia. (sublinhados meus)».
Agora - uma hora depois - é o Expresso que parece que desmente: «Crente nas suas duas fontes o Expresso optou, então, por avançar com a notícia, embora ressalvando que a administração daquela unidade hospitalar não confirmava oficialmente o teor da mesma.». Sei que esta posição é recusada por muitos, mas das duas uma: ou as fontes não disseram exactamente assim, e o jornal ‘abusou’, ou disseram e enganaram o(s leitores do) Expresso. Não deveriam ser identificadas?
ACTualizo a 16/04: está visto que o Expresso foi enganado e meteu água. A questão, se me permitem, é esta: as coisas ficam assim? os leitores são estúpidos? Passaram 24 horas sobre a primeira notícia e não há uma explicação ou um pedido de desculpas.
Volto a actualizar com o comunicado da Direcção do Expresso: «(…) temos hoje de reconhecer que a informação da entrada de Jorge Nuno Pinto da Costa no Hospital da Luz não tem qualquer sustentação, pelo que jamais devia ter sido publicada. (… tanto quanto é possível saber, no processo de confirmação da notícia não foram cumpridas normas exigíveis pelo Código Deontológico dos Jornalistas e pelo Código de Conduta dos Jornalistas do Expresso. (…) Deliberou ainda, ouvido e com a plena concordância do Conselho de Redacção, eleito pelos jornalistas, publicar este comunicado no seu site e na edição semanal e dele dar conhecimento directo aos envolvidos.»
Sobre o que tem afirmado o PSD relativamente ao programa que Fernanda Câncio poderá apresentar na RTP digo e repito: são argumentos disparatados, precipitados e exagerados: basicamente porque estamos mal quando um partido político, com as responsabilidades do PSD, entra por estes domínios, da insinuação e dos casos privados)
Outra coisa diferente - e, admito, polémica - é se a Fernanda Câncio deverá ou não fazer este programa na RTP, tomando como válidas as informações sobre o relacionamento com o primeiro-ministro - porque se não forem válidas então não há nada a dizer.
Um caso como este não se resolve pela lei ou mesmo através do código deontológico. Não há nada, aqui, que impeça esta jornalista de fazer o referido programa (os seus direitos, neste caso, profissionais não podem ser diminuidos). Um caso como este remete-nos, antes, para a consciência individual, para a percepção das hipotéticas incompatibilidades que a jornalista eventualmente descubra/sinta.
Por isso não há nem pode haver uma resposta clara (objectiva) ou colectiva para este problema.
Só respostas individuais.
A minha, no papel de Fernanda Câncio [!!] era de recusa, enquanto houvesse um relacionamento com aquele que, no limite, tutela o órgão de comunicação social em que vou trabalhar…