Textos do mês Maio 2008 ↓
«(…) por acaso reagi mal à pergunta e ao jornalista porque acho que há perguntas que não se fazem na vida. Nunca perguntei aos meus filhos em quem tinham votado. Reagi mal. Foi uma reacção epidérmica a uma pessoa que faz uma pergunta que não se deve fazer. Os jornalistas têm de se habituar a que não podem fazer todas as perguntas. Essa é uma delas. Não podem fazer perguntas em que votei!», diz Manuela Ferreira Leite, na Sábado de ontem.
A candidata do PSD está enganada. Por regra, em nome do exercício da liberdade de expressão e de imprensa, todas as perguntas devem ser feitas - dependendo do contexto e das motivações. A comparação com os filhos é disparatada e despropositada; como cidadãos, a publicitação do seu voto é irrelevante; a dra. Ferreira Leite é uma protagonista da política portuguesa; o seu voto não é irrelevante.
Mas ela pode não responder. Pode dizer apenas ‘não respondo’. Não pode - porque essa é uma mensagem errada que estamos a passar para a sociedade - impedir as perguntas. Já há tantas pessoas a tentar fazê-lo…
Não tenho uma noção precisa do que é que significa na verdade existirem duas listas de jornalistas para a Comissão da Carteira Profissional, uma apoiada pelo Sindicato dos Jornalistas e outra não.
Não sei se é apenas um acto de solidariedade para com Daniel Ricardo, afastado da lista do Sindicato depois de muitos anos de contributos nessa área, ou se há mais para além disso, se se podem fazer outras leituras. Espero para ver.
(soube através do Clube de Jornalistas, o Sindicato limitou-se a apresentar a sua lista, sem mais explicações públicas para o afastamento de Daniel Ricardo)
ACT a 1/6/08: O Sindicato entendeu na sexta-feira explicar alguma coisa. Lá está, mais vale tarde do que nunca. Renovação é o que explica a saída de Daniel Ricardo. É, à partida, um argumento válido. Actualizei também o título do texto, porque houve mais quem entendesse que eu podia estar a insinuar alguma coisa relacionada com partidos. A hipótese parece-me absurda, por despropositada, mas nada como esclarecer sem margem para dúvidas. Partidos? Francamente… Mas se há mais gente a pensar a mesma coisa, a culpa será certamente minha. Está corrigido, como já explicara nos comentários.
A crónica é apresentada muitas vezes como um género jornalístico, mas eu sou dos que acham que não. Crónica não é jornalismo, na medida em que não se pode explicar nem enquadrar dentro das regras jornalísticas. E por isso é que uma crónica feita por um jornalista não se distingue - só por isso - de uma feita por um não jornalista.
O que é que faz uma boa crónica, por exemplo? Ter alguma coisa para dizer, nomeadamente, escrever com algum ’sex appeal’, conseguir arrumar as ideias. Mas imagino que ao contrário da notícia, da reportagem ou da entrevista, não se consiga ensinar a fazer uma boa crónica.
Quando me perguntam por uma boa crónica, respondo com aqueles que são - para mim - os bons cronistas. Aqueles de que gosto mais. Aqueles que faço um esforço para ler regularmente. Entre os deuses do meu olimpo está João Miguel Tavares, do DN; por coisas como esta!
«Paulo Azevedo vai responder aos jornalistas sobre questões que estes queiram colocar sobre os Resultados do 1º Trimestre de 2008 da Sonae SGPS através do website Sonae Circle (www.sonae-circle.com). Entre as 0 horas e as 10 horas do dia 28 de Maio (quarta-feira), os jornalistas poderão enviar a suas perguntas sobre o tema para o referido site (limite de seis questões), recebendo depois as respostas de Paulo Azevedo a partir das 15 horas do mesmo dia» (de um comunicado da Sonae SGPS).
A Sonae (noi mesmo texto) «sublinha a forma inovadora que a Sonae SGPS tem procurado manter na sua relação com o mercado» e diz que está a «investir numa comunicação mais aglutinadora, actualizada e sempre disponível». Mas como fazer o contraditório, como obter os esclarecimentos necessários, sem a possibilidade de questionar o interlocutor no momento?
PS - é a segunda originalidade da Sonae SGPS desde a entrada de Martim Avillez Figueiredo; esta como a outra podem ser inovadoras mas - parece-me - não contribuem para uma relação transparente com ‘o mercado’ e não permitem um exercício jornalístico completo.
A TSF e a Sporttv(pelo menos) transmitem em directo a conferência de imprensa diária do estágio da selecção. E o resultado é, globalmente, confrangedor. Os jogadores não querem falar sobre o que pode ter algum interesse, as perguntas - regra geral - são muito pobres. A minha dúvida é se poderia ser diferente (ontem, com Quim e Ricardo, era óbvia a insistência na hipotese de titularidade para Quim, mas o jogador nada disse de relevante). Dir-se-á: podem optar por não perguntar, se não há nada a responder. Mas as regras de produção jornalística implicam encher (sem aspas) espaços previamente destinados. Além do mais, também pela qualidade das perguntas se vê a qualidade dos jornalistas…
Esta ‘desculpabilização’ não legitima absurdos como este (independentemente do exemplo, coisas como esta ouve-se diariamente).
A Bola era o jornal mais «velho» e conservador - ao nível da imagem - de entre todos os que se fazem em Portugal. Claro que não era o mesmo jornal dos tempos de Vítor Santos, Aurélio Marcio ou Homero Serpa. Mas enquanto a concorrência já tinha refrescado o ‘produto’, a Bola mantinha-se um jornal de aparência pesada, mesmo cinzenta.
Saúdo, por isso, a mudança que desde ontem se pode apreciar nas páginas de A Bola. Vítor Serpa diz no editorial de ontem que um jornal deve ter a idade dos seus leitores. Ser-lhe(s) agradável no conteúdo mas também na forma. E A Bola que se lê desde ontem está mais agradável, indiscutivelmente. Falta dar o outro salto, mais importante, por sinal: de mais atenção e respeito pelo leitor, mais informação e consideração sobre o processo de construção jornalística (as fontes, a origem das notícias, as rectificações, etc).
José Sócrates fumar não é notícia. José Sócrates pode ser o primeiro ministro que criou a lei mais anti-tabaco da história portuguesa e pode ser ele próprio fumador.
José Sócrates fumar num avião, onde é proibido fumar (com ou sem lei portuguesa), é notícia.
José Sócrates fumar às escondidas num avião só aumenta a noticiabilidade da informação.
PS - volto ao assunto porque o assunto foi abordado hoje no parlamento
Li a proposta de regulamento disciplinar que está em discussão pública e deixo o meu contributo:
Desde o princípio que me manifestei favoravelmente à existência de sanções disciplinares para falhas deontológicas graves (seja como elemento dissuasor seja como penalizador em concreto). Um regulamento disciplinar é, portanto, e por muito que custe, necessário.
Este que nos é proposto peca, do meu ponto de vista por ser demasiado lato, por permitir multiplas interpretações a quem o vai aplicar, seja mais rígido ou mais generoso… Ou seja, de uma forma genérica, penso que a forma como está redigido é relativamente pacífico; o problema poderá ser depois.
Um exemplo: não está claro o grau de gravidade das infracções. Da lista de infracções disciplinares apresentadas, quais são aquelas que irão merecer «advertência registada, repreensão escrita ou suspensão do exercício da actividade profissional até doze meses»? Há uma lista de 11 infracções disciplinares, sem qualquer hierarquização (são todas iguais? Claro que não. A rectificação de incorrecções não é igual a explorar vulnerabilidades de possíveis entrevistados). Depende do bom senso? É capaz de ser pouco…
Por outro lado, acho difícil equacionar uma infracção disciplinar que tenha sido cometida no dever de obediência hierárquica com a tal lista.
Finalmente, duas sugestões sobre a lista: deveria estar contemplada a punição do eventual benefício próprio resultante de determinado acto jornalístico (noticiar um acto bolsista, com acções dessa empresa, por exemplo), e discordo que o jornalista não possa «participar no tratamento ou apresentação de materiais lúdicos, designdamente concursos ou passatempos, e de televotos». Sobre os televotos concordo, mas que infracção disciplinar é participar no quem quer ser milionário???
Sei que Eduardo Cintra Torres (ECT) desperta muita antipatia - e eu próprio já o critiquei algumas vezes.
Mas é forçoso reconhecer que aborda no Público temas que, de outra forma, não estariam na agenda mediática. O trabalho que fez no último sábado, comparando o número de grandes planos na entrevista de Manuela Ferreira Leite à RTP com as duas últimas entrevistas de outros candidatos ou dirigentes do PSD é muito interessante. E único.
Pacheco Pereira - no sábado anterior - já tinha falado disso («Face»), mas - eu que não vi a entrevista - levei o texto à conta de, como o próprio Pacheco diz, «propaganda eleitoral». Depois de ler, em ECT, que a entrevista a Ferreira Leite teve 16 grandes planos/rosto (zero em Rui Rio e zero em Santana Lopes) e 29 primeiros planos/cabeça (zero em Santana e dois em Rio) fiquei inquieto. ECT fala numa ‘devassa da distância social dos entrevistados’ e parafraseia Pacheco Pereira: o programa terá outros planos sem ser jornalísticos?
O provedor do telespectador não deveria perder esta oportunidade de mostrar se Pacheco e ECT estão a ver fantasmas onde eles não existem, como disse Judite de Sousa ao DN, no dia seguinte ao texto de Pacheco.
… é a ligeireza (a falta de qualidade!) de alguns dos textos publicados na secção «Portugal». Não é a primeira vez que aqui falo nisso, mas também, admito, não será a última.
No sábado, na página 37, lia-se na notícia «Mulher despeitada sequestra e agride amigo» (repare-se como já está feita a investigação do alegado crime!, só falta a sentença) o seguinte excerto: «Em Nelas, onde reside a vítima, a versão é outra. ‘O individuo é divorciado e arranjou uma namorada. Como o mundo é pequeno, a namorada é ex-mulher de um engenheiro que está a viver com Rita, a mulher que o terá agredido e que também é cá da terra’, afirma Pedro Pereira, taxista. ‘Um dia disse à namorada que essa Rita, que se juntou com o ex-marido, era muito dada. A Rita quis vingar-se e estava a à espera dele quando saiu da fábrica (…)’». Ou seja o título é construído com base no depoimento do taxista.
Jornalismo?
Há dois anos, a cobertura jornalística da presença portuguesa no Mundial de Futebol deixou muito a desejar (por culpa quer dos jornalistas quer da Federação e dos seus colaboradores).
Deixo algumas sugestões:
- jornalistas não batem palmas ou apupam;
- jornalistas não fazem homenagens;
- os factos são sagrados; as opiniões ou são expressas em espaços próprios ou no bar (ou no blogue…);
- as perguntas têm de ser feitas; as respostas é que podem não ser dadas;
Por vezes queixamo-nos de «jornalismo» feito por quem não é jornalista. E quando jornalistas fazem coisas como esta (ACT: procurem por favor a peça de Mário Crespo «Sócrates fumou dentro do avião», peça transmitida ontem à noite na Sic Notícias), que não são manifestamente jornalismo, mas intoxicação (por causa do fumo, claro)?
PS - para não ficarem dúvidas sobre outras motivações: censuro claramente o comportamento do primeiro ministro. ACT: E acho que é notícia.
Uma das reportagens do novo programa da RTP1 «30 minutos» (ontem) entrevistou várias crianças menores (8 ou 10 anos) que estão - como agora se diz - institucionalizadas. Crianças que foram vítimas de algum tipo de violência e que estão a ser criadas por uma instituição (fora dos pais, portanto). Crianças que apareceram identificadas. Crianças que não têm discernimento sobre as hipotéticas implicações de aparecerem na televisão, relatando os seus casos. Crianças cujo direito inviolável é de não serem entrevistadas e identificadas. Por isso são crianças.
ACT a 20/05: ontem, no telejornal da RTP, uma reportagem com crianças, mas com imagem distorcida.
Sexta-feira os jornalistas destacados para acompanharem a declaração do presidente do FC Porto depois de conhecidos os castigos da Comissão Disciplinar da Liga de Clubes viveram mais uma situação impensável, indigna e humilhante.
Esperei alguns dias porque pensei que o Sindicato dos Jornalistas iria tomar posição. Infelizmente, o Sindicato continua a dar razão a todos aqueles que dizem que as direcções de Alfredo Maia acentuaram o divórcio entre Sindicato e jornalistas. Jornais como o Record, A Bola e O Jogo, pelo menos, denunciaram o caso publicamente (não podem dizer que não ouviram falar).
Tanto quanto sei, os jornalistas que se deslocaram ao Dragão foram deixados à porta, na rua, misturados com os super-dragões, até alguns minutos antes do início. Ouviram-se insultos e, segundo li, jornalistas da Antena 1 e de O Jogo foram agredidos (a jornalista da Antena 1 terá mesmo ido ao hospital). Houve empurrões, ameaças, correrias. Sexta-feira ao fim da tarde no Dragão. Polícia não havia, o FC Porto nada fez (criando condições para que as coisas acontecessem), o Sindicato nada diz.
O FC Porto é o melhor dentro das quatro linhas, mas fora continua, a este nível, a comportar-se como uma instituição pouco recomendável. Por estar solidário com os meus camaradas, escrevo este texto. E não deixo de censurar a direcção do Sindicato dos Jornalistas pelo silêncio e pela omissão na solidariedade aos seus representados.
ACT a 14/05: «A Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ) exigiu hoje, 14 de Maio, a garantia da segurança dos jornalistas em serviço em recintos desportivos e considerou que o Boavista Futebol Clube e o Futebol Clube do Porto, bem como a Entidade Reguladora para a Comunicação Social devem averiguar as agressões a jornalistas verificadas no dia 9 nos estádios do Bessa e do Dragão, no Porto.» (um comentário meu: o Sindicato reage e mais vale cinco dias depois do que nunca; quanto à substância: são os chamados ’serviços mínimos’ - apela, considera, expressa, devem apurar; não seria possível uma reacção mais enérgica? Por exemplo, em vez de esperar que a ERC ou os clubes façam alguma coisa, não poderia o Sindicato tomar a(s) iniciativa(s)?)