Várias pessoas, que conheço e outras que não, fizeram força para que regressasse ao Blogouve-se. É com essas que me sinto mais em dívida.
Mas - acreditem - não sinto nem força nem entusiasmo para voltar.
Não digo nunca nem me afasto da blogosfera (mantenho blogues como docente, como adepto de futebol, como jornalista da TSF, como investigador), mas este, em concreto, chegou ao fim. Nestes meses houve momentos em que me apeteceu escrever, mas foram casos esporádicos.
Acabou.
Um abraço.
Obrigado.
O Blogouve-se faz, por estes dias, cinco anos.
… e há muito que pensava aproveitar os cinco anos do Blogouve-se para um ‘ponto da situação’; para repensar o trabalho realizado, para encontrar, eventualmente, um sentido para continuar - tudo tem de ter um fim, certo?
A necessidade de, nos próximos três meses, ter de concluir a minha tese de doutoramento (pedi, inclusivamente, uma licença sem vencimento na TSF), iria fazer-me afastar desta realidade nesse período de tempo. Seria inevitável. Poderia voltar a seguir, mas haveria sempre uma paragem.
Confesso que há algum tempo que o blogouve-se deixou de ser apenas um exercício de prazer. Há algum tempo que percebi uma significativa animosidade relativamente a alguns assuntos por mim tratados, animosidade que aceito como inevitável mas que tem um reverso: impede a discussão dos tópicos propostos, na medida em que, poucos comentários depois, já sou o próprio visado (e, pior, a TSF *). Quem anda à chuva molha-se, não é?
Valeu? Sim, valeu. Reclamo para mim, nestes cinco anos (sobretudo nos últimos, na medida em que o próprio blogue evoluiu desde o início), um exigente comportamento ético para com os leitores, e a coragem -perdoem-me a imodéstia - de chamar as coisas pelos nomes, em vez de me limitar a enunciar princípios. Criei, sobretudo entre os meus camaradas, mais animosidade do que simpatia (e isso não é bom, algumas portas fecharam-se certamente), mas sinto - é o mais importante - que não estão reunidas as condições para continuar (todas, incluindo, como expliquei antes, as pessoais). Os últimos textos, nomeadamente o mais recente, são apenas um exemplo evidente disso.
Cinco anos a escrever todos os dias não se extinguem sem uma ponta de emoção. Mas também com um agradecimento, sobretudo aos que me fizeram seguir em frente com este projecto.
* em cinco apanhei três directores diferentes; nenhum deles me criou qualquer problema - ou, sequer, me chamou à atenção - por alguma coisa que tenha sido escrita; é justo dizê-lo.
Um dos mais conhecidos comentadores de futebol da televisão portuguesa, Jorge Batista (SIC) é assessor de imprensa (da UEFA) neste europeu de futebol. Já o vimos nas conferências de imprensa no final dos jogos e ontem era ele que estava a receber (sorridente) a selecção à chegada ao estádio.
Todos temos de ganhar a vida e ser assessor não é menos digno do que outra coisa qualquer, mas Jorge Batista voltará à Sic como comentador daqui a duas semanas? (espera-se ao menos que cumpra o período de quarentena previsto no Estatuto do Jornalista…) ACT a 17/06: JB não é jornalista, esta última questão não se coloca; em contrapartida faz comentários sobre a selecção durante o europeu, do qual é assessor. O assunto leva grande discussão nos comentários…
Excelente, pela abordagem, pela escrita, pela paginação, o texto «Mentes Criminosas» no Jornal de Notícias de ontem (assinado por Helena Norte), no qual se entrevistam advogados de homicidas condenados em Portugal.
São seis páginas que fazem valer, só por si, o dinheiro do jornal.
Gostava de ligar esse texto, mas não o encontrei na página do JN; aliás, a nova página online do JN tem uma ligação pouco clara com a edição em papel; pelo arquivo também não cheguei lá. Será propositado?
Na quarta-feira apenas tive possibilidade de ver um pouco mais de metade do jogo de Portugal. Ou seja, não vi o terceiro golo. Chegado a casa perto das nove da noite - e como na Sic Notícias, às nove da noite, não há futebol dentro das quatro linhas - a minha opção foi ligar a RTPN. Meia hora de notícias e nem uma referência ao futebol. Percebi depois que esse bloco aparecia no meio de um especial sobre a selecção, mas a verdade é que o ‘meu noticiário’ não teve a notícia que eu queria ver.
No dia seguinte, ao entrar no carro pouco depois das sete da manhã, ouvi na Antena 1 uma música que me ficou no ouvido; esperei pelo fim, mas o animador não disse o seu nome (provavelmente porque terá dito no início). E a informação que eu queria não apareceu.
Estes dois casos relevam essencialmente uma coisa (para além de andar com os horários desacertados…): até a net (e digitalização em sentido geral) aparecer a nossa insatisfação face aos meios clássicos era contida, era inconsciente, era ‘abafada’ pela falta de alternativas. Com a net eu já não preciso de esperar meia hora por uma notícia que não me vão dar ou de ficar sem saber o nome da música a que achei piada. Com a net, em suma, as deficiências (naturais, umas, e evitáveis, outras) dos meios clássicos são evidentes, porque passa a haver possibilidade de comparação, sendo que em muitos casos é a Internet que fica a ganhar.
PS - mesmo assim, acho que faria sentido, nesse noticiário de meia hora, um resumo com os três golos de Portugal, a pensar nos que ligaram nessa altura (afinal, é a hora certa de um noticiário) e, tratando-se de uma música nova, uma dupla apresentação, antes e depois, a pensar no interesse do destinatário e tentando evitar a migração para a net! Dir-se-á: mas a net é complementar dos meios clássicos. Acontece que, na net, tudo é concorrência. E eu posso encontrar noutras páginas, que não as da RTP ou da Antena 1, no caso, a informação que procuro. É o google, estúpido…
Muito (e bem) a propósito: «Os jornais não têm futuro? Ou é o jornalismo que não tem futuro?”
Scolari vai para o Chelsea e Ricardo Carvalho e Paulo Ferreira já comentaram (acabei de ouvir).
Mas como, se não houve conferências de imprensa e os jogadores não podem atender jornalistas fora desses momentos?
Mais: mesmo nas conferências de imprensa os jornalistas presentes são (já foram várias vezes) advertidos para não fazerem perguntas sobre outros assuntos que não (d)a selecção!
Espero que este caso sirva para os jornalistas presentes em Neuchatel perceberem que as regras impostas por assessores, neste caso da Federação, não se podem sobrepor às regras/obrigações jornalísticas - com os seus leitores, ouvintes ou telespectadores.
Joaquim Vieira não perdeu tempo e tratou do assunto na sua crónica de ontem: «(…)volta-se a prevenir para os perigos do jornalismo prospectivo: quando se acerta, ganhou-se a lotaria, mas, quando se falha, é um desastre que arrasta a credibilidade do órgão de informação».
Gostava apenas de destacar duas notas:
1) Como é que 2008, num jornal da Sonaecom, pode acontecer coisas como esta, que o jornalista do Público relata no texto enviado ao Provedor: «Sábado, estava no local, no meio das 100 mil pessoas, numa zona lateral, um pouco mais resguardada, onde fosse possível ouvir o telefone em condições, quando o editor de fecho efectuasse a chamada combinada a partir do jornal, para reportar se a cantora sempre actuava ou não»?
2) Para o livro de estilo do Público: um editor ou um director não pedem a um jornalista que escreva «por antecipação»; um jornalista não aceita escrever um texto nessas condições…
A Lusa fez ontem uma notícia em que identificava uma menor suspeita de ter sido vítima de abuso sexual. Sim. Uma menor suspeita de ter sido vítima de abuso sexual identificada. Na Lusa. Já corrigi e já pedi desculpa nos comentários, não é correcto atribuir a identificação da menor à Lusa. «Detido suspeito de abuso sexual»
O Correio da Manhã ainda foi mais longe: manteve a identificação e colocou uma fotografia da rapariga! (recuso-me a fazer a ligação directa, a notícia tem este mesmo título e está na pesquisa).
Há muita gente no jornalismo que, corporativamente, é contra as futuras sanções disciplinares. Eu - que sou a favor para, por exemplo, casos como este - gostaria que me dissessem, por favor o que acham que se deve fazer num caso como este? Meter a cabeça na areia?
… diz André Gonçalves Pereira, no Jornal de Negócios de hoje.
Felizmente a democracia gerou jornais onde este «protegido de Marcello Caetano» pode dizer coisas como esta.
São as crónicas de Ferreira Fernandes no Euro-2008.
A mesma crónica sai em simultâneo em três jornais.
Penso que é a primeira vez que isto acontece (pelo menos de uma forma tão sistematizada e consciente).
São os sinais (económico-jornalísticos) dos tempos. Mas não são - mais uma vez - sinais tranquilizadores: porque descaracterizam os meios de comunicação social, os tornam mais iguais e lhes retiram identidade (as crónicas de Ferreira Fernandes fazem parte da identidade do actual DN; se estão ‘em todo o lado’…).
Para já ainda é um caso isolado, restrito à cobertura de um grande (e dispendioso) acontecimento.
Uma nota final: DN e O Jogo assumem a estratégia da publicação simultânea, publicitando com a mesma frase (a que está em título); O JN não.
No final da semana passada, enquanto acompanhava uma iniciativa ligada aos bombeiros sapadores do Porto, Rui Rio afirmou qualquer coisa como ‘Qualquer dia também tenho que ir apagar um fogo no PSD‘.
A frase vale o que vale, mas num contexto de eleições no PSD pode ser interpretado (entre outras coisas) como um sinal de desconfiança relativamente a Manuela Ferreira Leite, que Rio apoia.
Estavam muitos jornalistas nessa sessão e a frase soube-se, mas a verdade é que, eu tenha visto, apenas a SIC a utilizou. Basicamente porque foi a SIC que a gravou. Mas não só.
O caso é mais complicado do que possa parecer. Tanto quanto apurei, Rio disse a frase enquanto visitava uma exposição e era acompanhado (apenas) pela câmara da SIC. Rio saberia que estava a ser filmado, não saberia que estava a ser gravado (áudio). Perguntaram-me a opinião no momento e repito o que então disse: o repórter de imagem da SIC também é um jornalista e nesse sentido mais extensivo Rio não poderia dizer que não sabia que estava a ser acompanhado por um jornalista (o que pode justificar a opção da SIC). Mas não é claro que não fique a ideia de que a informação foi obtida por ‘meios desleais’ (captada pelo microfone da própria câmara). E, manifestamente, esta não é uma situação de evidente interesse público que justifique a sua utilização.
O JN também lavou a cara e, mais do que, isso fez um ‘lifting’ que claramente o pôs mais bonito, mais arrumado, mais interessante.
Mas, sendo importante, é cosmética. Apenas.
Não acredito que a cosmética faça vender jornais - pode contribuir, pode ajudar, mas não será suficiente para fazer vender jornais.
E o JN tem vindo a cair nas vendas.
O JN é hoje um jornal que concorre com o DN ou com o Público no campeonato dos jornais de referência. Tem tudo, lá dentro, para o ser. Mas é isso que interessa ao JN? Obviamente não tenho nem dados suficientes nem fórmulas mágicas mas agora que se fala tanto em jornalismo de proximidade, o JN foi o primeiro a apostar há muitas décadas na proximidade com o leitor. Penso que isso se tem vindo a perder. Mais uma nota: num jornal como JN a informação económica não pode estar antes da informação do Porto e do Norte, afinal a que mais distingue (a que pode distinguir) o JN do Público, do seu irmão DN ou mesmo do Correio da Manhã.
PS - como lembra Manuel Pinto no JN de hoje, se calhar pela última vez, parece claro que o jornal não voltará a ter provedor dos leitores.
Com os nosso filhos somos muito mais exigentes e sofremos muito mais.
Com os nossos filhos somos mais emotivos e, se calhar, irracionais.
Com os nossos filhos vamos aos extremos.
E digo isto porque não me sai da cabeça o «lamentável erro» do Público de sábado: para ilustrar um texto sobre o ex-presidente do BPN, escolheram uma fotografia de Rui Oliveira e Costa. Há erros e erros, mas Rui Oliveira e Costa, seja pelas sondagens seja pelos comentários de futebol, é das caras mais conhecidas. Atrever-me-ia a dizer que todos os leitores do Público perceberam que havia um erro. Mas que aconteceu. Como se explica? Ontem, no mesmo local, o jornal pede desculpas a Rui Oliveira e Costa e fala no tal «lamentável erro», mas devo confessar que, da mesma forma que se dizia do JN há uns anos que ‘ninguém faz tão bem um jornal tão mau‘, nos arriscamos a começar a ouvir dizer que ‘ninguém faz tão mal um jornal tão bom‘.
Desculpa, Público.
Reproduzo, com a devida vénia, o interessante trabalho de João Tomé sobre o texto da primeira página do Público de ontem, a propósito do concerto (?) de Amy Winehouse.
Convido os leitores a seguirem os argumentos do João.
Gostaria de ouvir/ler o que é que o jornalista do Público diz deste caso (via provedor?), mas uma coisa é certa, tenha ou não acontecido com este caso: escrever por antecipação não é jornalismo (nenhum jornalista deveria impor a outro tal coisa nem nenhum jornalista deveria aceitar tamanha encomenda).