"Nenhum", mesmo?
Ontem a Renascença apostou numa notícia relacionada com o fim das listas de espera para intervenções cirúrgicas nos hospitais públicos.
Mas a formulação parece-me perigosa: “Acabaram as listas de espera de vários anos para cirurgia. Nesta altura, nenhum dos portugueses à espera de operação tem registo anterior a 2002 e o tempo médio de espera é inferior a um ano.”
Nenhum, mesmo?
É verdade que as notícias nem sempre precisam de ter uma fonte citada, e esta, directamente, não tem* (a fonte, sobretudo em «on», poderia assumir a responsabilide). Mas é curioso como um responsável político, que fala nessa notícia, diz qualquer coisa como “No norte praticamente já não temos…”.
Ora entre “nenhum dos portugueses” e “praticamente…”…
* Provavelmente a notícia que foi para o ar pode não coincidir com a versão on line, mas o essencial é que, quando ouvi a primeira vez, estranhei a garantia e comentei para quem me acompanhava no carro: nem um, sequer?

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Então?
Onde está o post sobre a vítima que não era, mas afinal já é…
Falo do incêndio em Paris..
Afinal todos nos enganamos.
assumir um erro é bonito.
Apaga-lo é feio.
Na sexta-feira, à hora do almoço, preparei um texto sobre um tema recorrente neste blogue: o jornalismo como arte (ofício?) instável, precário, muitas vezes incompreendido pelos receptores e protagonistas.
O texto baseava-se numa situação, vivida nessa manhã, em várias redacções e relacionada com um incêndio em Paris. A RR, como dizia então, tivera o mérito de ser a primeira a falar com o embaixador e este avançou com a notícia de um morto de origem portuguesa. As outras rádios falavam apenas num ferido. A informação dada pela RR não teve, nas horas seguintes confirmação (e o embaixador desapareceu de circulação…). Mas não havia - como é óbvio - qualquer crítica à RR. Pelo contrário, o texto tentava mostrar como o jornalismo também se conjuga com azar. Se o embaixador o diz é óbvio que deve ir imediatamente para o ar! Eu teria feito o mesmo!
Cinco minutos depois do texto estar pronto (ou seja, umas cinco horas depois do caso) surge a notícia de um morto português confirmado nesse incêndio.
Porque era preciso perceber o que se passara - e porque já estava desactualizado - retirei-o para preparar um novo.
O desafio do anónimo leva-me a colocá-lo aqui mesmo.
PS - O texto esteve cinco minutos disponível e mesmo assim foi escrutinado - isso é interessante! Só lamento que esse anónimo 1) não tenha percebido o espírito do texto; 2) faça juizos de valor… anónimos!
O João Paulo arranja forma de ter sempre razão ! Parece-me ser, como diz o povo, o feitio dele.
Que não seja por isso…
O meu nome é Elisabeth e ocultei-o, unicamente, para dar protagonismo ao autor do blog!
Hoje escrevo ainda para recordar que uma das regras de ouro de um blog é nunca apagar o que se escreve.
Saudações radiofónicas
Admito que pense(m) assim, mas não é essa a minha perspectiva. Desculpem os sacerdotes da ética blogueira, mas no meu blogue eu faço o que muito bem entender (ponho os textos que entender, quando o entender e da forma que entender). E quando sentir que não o posso fazer exactamente da forma que entendo fecho a loja. Outra coisa muito diferente é prestar contas do que faço, nomeadamente quando alguma coisa corre menos bem. E já o fiz, aqui, diversas vezes (sem recusar os comentários alheios, mesmo aqueles que remetem para o meu feitio…).
Caro João Paulo
Como editor dos jornais da manhã da RR, queria apenas esclarecer o seguinte:
A informação por que veiculamos foi-nos adiantada por três Administrações Regionais de Saúde (Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo) – as únicas que ainda não aderiram ao SIGIC, Sistema de gestão de Inscritos para Cirurgia, apontavam para uma realidade concreta.
Na notícia abordamos duas situações: primeiro, os tempos “médios” de espera diminuíram para menos de um ano; segundo em nenhuma das administrações regionais de saúde, como nos garantiram em “on”, em nenhuima há registo de inscrições para cirurgias anteriores a 2002.
Às 7 da manhã, altura do primeiro noticiário em que foi dado relevo a esta notícia, transmitimos a posição da Administração regional de Saúde do Norte, que já adiantava que os tempos médios de espera não ultrapassavam os 8 ou 9 meses e ainda que ninguém estava a aguardar uma cirurgia há mais de dois anos.
Resta apenas dizer que nos noticiários seguintes (8,9 e 10 da manhã) foram colocados no ar responsáveis das administrações regionais de saúde do Centro e Lisboa e Vale do Tejo com declarações que comprovavam isso mesmo. Foi ainda com base nos dados fornecidos por estas “fontes” que avançamos a indicação da existência de 180 mil pessoas à aguardar uma cirurgia.
Como vês, em quaisquer um dos noticiários em que a notícia foi à antena, referimos sempre a fonte e fizemos sempre a distinção entre tempo médio de espera e a data a partir do qual os doentes estavam inscritos.
Um abraço,
Arsénio Reis
Viva Arsénio.
Antes de mais um abraço e obrigado pelos esclarecimentos que aqui deixas. E que aceito - primeiro por respeito pelo teu trabalho, que ouço todos os dias, e depois porque és tu o “dono da bola”!
Mas concordarás que palavras como “nenhum” ou “todos” são muito fortes. Eu teria preferido, nesse caso, que a notícia deixasse claro que as três administrações regionais garantem que… (e é isso que se se pretende aqui, discutir opções jornalísticas entre quem tem gozo em o fazer).
um abraço e volta sempre!
jpm
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